sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Já começou


"Já começou : a partir de agora até ao final de Janeiro vão começar a aparecer nos jornais os títulos de notícias sobre os aumentos. Transportes, electricidade e gás, água, comida, bens de consumo, tudo aumenta no princípio do ano, e o ano de 2006 vai ser o ano mais duro de sempre da democracia portuguesa. Não se trata de saber se o regime está em causa, como no PREC ou no período em que civis e militares e partidos de direita e de esquerda disputavam o poder político em Portugal. Trata-se de recomeçar a viver com o nada que temos, o nada que sobrou depois de anos de desperdício e más contas públicas, ausências e fugas de primeiros-ministros e esperanças e capital humano perdidos. Trata-se de recomeçar a viver depois de anos de indecisão e maus gastos.

Entretidos que temos andado com as sucessivas eleições, com a desinformação grosseira da realidade em que se tornou o noticiário político, que cuida do acessório e não do essencial, e com os episódios cómicos da nossa governação, uma vez eleito o próximo Presidente da República fecha-se um ciclo e abre-se outro. Vai haver instabilidade e conflito social, vai haver choro e ranger de dentes.

Portugal está empenhado, no sentido de penhorado, nos próximos anos, e hipotecámos as gerações futuras com um desprezo imenso pelo que vem depois de nós. Se tivesse alguma dúvida sobre as razões pelas quais apoiei Mário Soares como candidato presidencial, elas dissiparam-se no debate entre eles, que Soares claramente ganhou em termos políticos e pessoais, digam o que disserem.

Nada me move pessoalmente contra Cavaco, que reputo pessoa decente e incorrupta, o que não é pouco. Mas, de facto, ele não é um político, e de política nada sabe e nem a quer discutir. A política, para ele, é o exercício da autoridade ou o acordo tácito. O resto é pragmatismo empírico, e chavões sobre desenvolvimento, que conhecemos do tempo do cavaquismo, quando o desenvolvimento era o nosso motor de arranque e Cavaco o seu arauto, como primeiro-ministro. O primeiro-ministro do primeiro «tigre asiático» da Europa.

A verdade é que o modelo de desenvolvimento do cavaquismo, do betão e das auto-estradas ao modelo da Administração Pública, falhou. Graças a ele, e depois à fraqueza de Guterres, e à anedota dos consulados barrosista e santanista, estamos onde estamos. O mais bizarro é que Cavaco continua a falar como se fosse para primeiro-ministro e ainda ninguém o convenceu de que não vai, se for. E se for, vai com o seu partido atrás, que ele despreza. E a sua clientela, o empresariado português, a banca, com as facturas na mão.

O Presidente da República é e tem de ser um político, e um político experiente.
Se os portugueses estão convencidos que a única razão que move Soares é a do seu egoísmo e da sua vaidade, e não um interesse nacional (como Alegre quer demonstrar sem conseguir), então merecem Cavaco Silva e a sua vacuidade política e presidencial. Então não perceberam nada do país que temos e somos, e elegerão o seu manequim. Cavaco é um homem de direita com uma visão de direita, incapaz de gerir uma dificílima situação internacional e sem nenhum reconhecimento e conhecimento de política nacional, e, mais cedo ou mais tarde, Sócrates e o seu Governo e os portugueses em geral irão dar por isso. Se o elegerem, é porque o merecem. "
Clara Ferreira Alves
Led

5 comentários:

Carreira disse...

Se calhar por isso é que devíamos vetar os candidatos que temos e não votar neles! Pouco parcial o comentário que colocaste aqui...não fosse ele de alguém que afirmou há algum tempo ter "inimigos dentro do meio jornalístico" por ter uma escrita "violenta". Para não falar do facto de ser uma Soarista!

Ledbetter disse...

A ironia das ironias, chamar de pouco parcial a um comentário de opinião . E no fim acabar em grande dizendo " para não falar do facto de ser uma Soarista". Ela já assumiu em quem vai votar, e depois? Pelo menos não é hipócrita, como outros que por aí andam...

Carreira disse...

Há vários tipos de artigos de opinião, ou comentários! O que fiz foi um comentário...tal como a autora!
Mas quando falas em hipocrisias, gostava de perguntar o que é usar e abusar dum espaço de opinião (supostamente em benefício do país!) para atacar UM candidato presidencial E enaltecer o seu preferido entrando muitas vezes em contradição e esquecendo-se em parte do passado! Falta de Lucidez se calhar...ou então esta autora deveria aparecer mais vezes ao lado de Soares dando uma mãozinha na Campanha eleitoral. Como as coisas estão...dava jeito!

Ledbetter disse...

Epá...sinceramente...ela é apoiante de Soares, ela já o disse publicamente várias vezes. E depois?? Como tantos outros jornalistas (como o Luís Delgado do lado do Cavaco ou o Mário Resende do lado do Alegre ou muitos outros), ela decidiu tomar partido por alguém e com todo o seu direito democrático. Qual é o problema disso?? “Usar e abusar” ???? “ Supostamente em benefício do país”? Não te percebo, sinceramente! Acho que queres teimar numa discussão que não existe. Mas não podes dar o braço a torcer, não é? No mínimo estranho (ou talvez não) ficares tão incomodado com as críticas a Cavaco depois de te assumires como apoiante de Alegre. Ficas incomodado com opiniões que não te convêm? Olha que essa não é a atitude da vistosa “onda de esperança democrática” que o Alegre tanto tenta vender. Enfim...”I rest my case”!

Carreira disse...

Se houve alguém a ficar incomodado foste tu...
E a minha discussão, como referes, não é discussão - é opinião! A mim incomoda-me ver um grande político, leia-se Mário Soares, fazer uma campanhazinha eleitoral contra aquilo que ele diz ser um técnico, com ataques constantes a Cavaco Silva, depois de ter dito e re-dito que pararia com eles. Depois também me incomoda ver jornalistas de opinião (que podemos ler, ou não, é uma verdade) adoptarem a mesma filosofia: o ataque sem pudor! Tenho dito...