quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

De amplas leituras

“(...) O que acontece comigo e com esta enorme falta de vontade de escrever sobra a obra de seja quem for é que não acredito que uma obra ganhe muito em ser explicada. Depois, eu não sou explicador. Só tenho palpites. Sou como o “tio” João: tenho palpites de impressionista, com diz dele o poeta com nome de navio. E ainda acontece outra coisa comigo: durante muito tempo li mais as explicações do que as coisas que, em princípios, as explicações explicam, e agora, invertida a tendência, estou a ver se aproveito o tempo que me resta da vida para ler finalmente as coisas. (...) Há quem pense que a leitura de Pessoa, por exemplo, está a ser bastante prejudicada pelo excesso de explicadores da obra dele. É provável. (...) Entreguem-se ao prazer da leitura. Façam o mesmo com um Céline e, em duas semanas, vão atirar às malvas uma dúzia de autores considerados geniais. É que já lá estava tudo e há muito mais tempo. É uma chatice mas é assim...”

Alexandre O’Neill - “Vinícius nunca mais!” JL, 07/07/1981


Led

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Biografia de um anónimo angustiado

Depois de ter cancelado a mui antecipada ida a um concerto por causa de uma gripe ridícula e cirúrgica, o autor de um conhecido blog pela sua mediocridade bradou aos céus para que os divinos responsáveis lhe dedicassem a prenda suprema e a sua amaldiçoada sorte se invertesse entre as 19:45 e as 21:45 do dia 24/02/09; de modo a que a exaltação cega de um estádio apelidado de Vicente Calderón fosse paulatinamente consumida nas labaredas de um dragão solidário e imperecível.

Led

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Tomorrow

Please press the photograph above for some minutes of Uzi & Ari’s finest album to date - “It Is Freezing Out”- with the delicate song “Tiny House” (and then you should go to Porto tomorrow for a pleasant sound experience).


Led

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Crónica pessoal e transmissível de um sábado oc(/d)ioso

Ando viciado em Neil Finn e Clarice Lispector.
O David Mourão-Ferreira nasceu no mesmo dia que eu.
Fascina-me. O fascínio com a astrologia.
Trabalho com receptores A2A.
Não compreendo o fenómeno “Duffy”.
O João Gobern não tem nível nem elegância para comentar na RTPN com o Bruno Prata.
Só concebo a longínqua aproximação ao verbo “dançar” como efeito secundário da ingestão aguda de carbonetos hidroxílicos.
O António Ramos Rosa é o melhor poeta dos últimos 100 anos.
Fiz a melhor canção da minha vida.
Os irmãos Gallagher continuam primitivos e dispensáveis.
No remoto dia 21/02/2009 fui sportinguista desde pequenino.
Simpatizo com o Augusto Santos Silva.
É preciso “malhar” na esquerda e na direita.
O João Gobern tem uma linguagem e uma maturidade intelectual de um tasqueiro atrasado.
Os receptores A2A não existem.
O meu dia é sempre mais risonho quando me esqueço que o Bagão Félix e Mário Nogueira também andam por aí a congeminar os seus credos.
Tenho uma canção nova que se chama “silence” e é literal ao termo.
A RTPN devia contratar o "Wally" da liga dos últimos para substituir o João Gobern.
Um dia ei de teorizar sobre a expressão “espírito à benfica”.
Terça vou ver Uzi & Ari.
Estou completamente ressacado.

Fim.

Led

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

As estrelas do Público


A escala de apreciação de cinema do jornal Público tem 6 graus (Mau, Medíocre, Razoável, Bom, Muito bom e Excelente). Pois esta semana o cerebral inquisidor de serviço Luís M. Oliveira conseguiu a coisa extraordinária de, em 8 filmes, classificar dois como medíocres e outros dois como maus. Estaremos nós numa rara conjuntura ástrea que só nos proporciona filmes de série-B? Segundo o técnico esvicerador do prazer corriqueiro, os medíocres dão-se pelo nome de “O complexo de Baader Meeinhof” e...“The Strange Case of Benjamin Button”! Os maus: “Second Life” e…“Slumdog Millionaire”! Portanto, as longas-metragens de Danny Boyle e Alexandre Valente equiparadas na mesma condição dantesca. Maravilhoso! Por seu lado, o camarada académico Vasco Câmara também opinou sobre o “The Strange Case of Benjamin Button” e, após austera transe cognitiva, rematou com um análogo “Medíocre”. O mesmo “Medíocre” aliás, que carinhosamente dedicou a essas bagatelas comercialóides para a parvalheira iletrada, filmes que se dão pelo nome de “Revolutionary Road” e “Vicky Christina Barcelona”. Restava “Slumdog Millionaire”...e que concluiu o nosso prestável enciclopedista? “Mau”, pois está claro! E que julgava eu? Lá porque o “Slumdog Millionaire” me deslumbrou por completo e ter achado o “Revolutionary Road” como “Bom” e o “The Strange Case...” como “Razoável”, pensava eu que os nossos inclementes analíticos (não-provincianos) iriam pestanejar na altura de dar uso ao lápis azul?

Já diz o povo, “presunção e água benta, cada qual toma a que quer”. Mas sinceramente não fará sentido o Público abrir mais três categorias para os doutos críticos do jornal? Quem sabe algo que vá do “deplorável” ao “censurável” ou mesmo, “ extremamente nojento”?

Luís M. Oliveira e Vasco Câmara, os maiores da aldeia!

Led

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

In Rainbows - Best Alternative Album, Best Boxed Or Special Limited Edition Package


A 51ª edição dos Prémios Grammy foi o esperado, muita teatralidade, muito corporativismo MTV e a habitual fraude insultuosa para quem ainda espera que dali saiam os prémios para os melhores músicos do mundo durante o ano precedente.

Os Coldplay voltaram a repetir a dose de afilhados europeus (britânicos, desculpem) da América ao ganharem os troféus para a melhor canção do ano (“Viva La Vida”), melhor performance Pop para grupo e melhor álbum de rock (os nomeados incluíam Kings of Leon, Kid Rock (!!!), Metallica e Raconteurs). E pronto, de “rock” estamos conversados…

Por seu lado, os Radiohead lá ganharam o prémio para melhor álbum alternativo do ano e ainda para o prémio estético de melhor edição especial de uma caixa-disco (facto que, pelos vistos, foi suficiente para deixar o Reznor agastado).

Mas o grande troféu para disco do ano não foi parar aos Coldplay nem aos Radiohead (aliás, a única categoria para a qual ambas as bandas estavam nomeadas simultaneamente), tendo este vindo parar ao álbum a solo do Robert Plant (Raising Sand).

E pronto! De todas as 4 longas horas de transmissão e de todos os 106 prémios cedidos e discursos ocos e exibições pindéricas e 23 performances executadas somente sobra mesmo isto… Muito talento, originalidade e qualidade, menos a estranha ordenação dos filamentos de queratina no couro cabeludo do Thom...

Led

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Parece que…


…como aperitivo aos festejos dos vigésimo aniversário da banda em 2011, os Pearl Jam vão relançar em finais de Março deste ano uma caixa que contém uma edição especial e remasterizada do álbum “Ten” e outra “remixada” pelo Brendan O’Brien, caixa que inclui entre outras coisas um DVD da sessão MTV unplugged de 1992, um LP do mítico concerto “Drop in the Park” no parque Magnuson em Seattle 92 (que serviu de base ao videoclip da “Even Flow”), uma réplica da cassete demo (“Momma-Son”) de Eddie Vedder com os vocais de 3 canções (“Alive,” “Once” e “Footsteps”), uma imitação do caderno de composição de Eddie recheado de fotos, notas pessoais, bilhetes reproduzidos, posters, etc, e ainda 6 canções bónus gravadas nessa altura (“Brother”, “Just a Girl”, “Breath (and a Scream)”, “2,000 Mile Blues”, “Evil Little Goat” e “State of Love and Trust”); Parece que Eddie Vedder, Dave Grohl, Norah Jones e o falecido Heath Ledger se encontram entre os nomes confirmados para interpretação de canções do álbum de tributo a Nick Drake; Parece também que os Doves vão finalmente lançar o seu novo álbum (“Kingdom of Rust”) no inicio de Abril, cujo single de avanço terá o mesmo nome do disco, a produção de Dan Austin (“Massive Attack”) e 11 temas; Parece que os Arcade Fire têm um novo tema (“Lenin”) de avanço ao novo álbum (“Dark Was The Night”) que deverá sair a 17 de Fevereiro; Parece que os U2 vão lançar mais um disco (“No Line On The Horizon”) igual aos últimos 3 mas aproveitando o embalo optimista de esperança de mudança que paira no ar; Parece que a Scarlett Johansson além dos seus outros maravilhosos atributos continua vaidosamente encasquetada das suas capacidades vocais (depois de ter cantado Tom Waits) e decidiu fazer uma cover da canção de Cohen e imortalizada por Jeff Buckley, “Last Goodbye"… “Scarlett, querida, limita-te ao cinema por favor!”; Parece que o Damon Albarn e o Graham Coxon fizeram as pazes e os Blur vão tentar renascer das cinzas de 7 anos de apartamento; Parece que os Autolux nunca mais…mas que ainda assim prometem lançar o novo disco (“Transit,Transit”) este ano e que os atrasos se devem à dificuldade em editar o mesmo(!!), álbum este que já conta com alguns temas propostos pelos fãs (a contar: “Supertoys”, “Audience Nº2”, “Headless Sky”, “Finder's Fee”, “Reappearing”,”The Science Of Imaginary Solutions”,”In The Way”,”SYRH”,”23 Watt Apple Juice”,”Tears for an inhaler” e “Underorbit”); Parece que o Phil Selway também sabe tocar guitarra; Parece também que, depois de terem sido presenteados com o título de doctores h.c em Artes pela Universidade de Plymouth, os Muse continuam a gravar o seu 5º disco que contam sair entre o final de 2009 e início de 2010 e do qual já se sabe estar gravada com a orquestra londrina uma grande sinfonia em 3 partes; Parece que os Coldplay voltaram ao estúdio e querem gravar um disco antes do final de 2009, ano que delimita a existência do grupo, segundo revelou Chris Martin, que deseja acabar a banda até aos seus 33 anos de idade; Parece que os Placebo já terminaram as gravações para o seu sexto álbum de estúdio que deverá sair em Junho deste ano, trio que se refaz da saída do anterior baterista Steven Hewitt (que admitiu ter saído devido a divergências musicais e pessoais) mas que já arranjou um substituto (Steve Forrest, anterior baterista da banda de punk Evaline); Parece que o novo álbum dos Sonic Youth irá chamar-se “The Eternal” e sairá em meados de Abril; Parece que Daniel Johns (Silverchair) irá unir esforços com Luke Steele (banda australiana “The Sleepy Jackson”) formando o projecto “Hathaway/Palmer” com vista ao lançamento de um disco num formato totalmente acústico; Parece que os Deftones se encontram em gravação para o seu 6º álbum intitulado “Eros” que descrevem como mais agressivo e veloz apesar de conter muito música aérea, Deftones que se vêem confrontados com a circunstância delicada do baixista Chi Cheng se encontrar em coma no hospital após um aparatoso acidente de carro em Novembro passado; Parece que…já chega.


Led

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

6 canções para o fim-de-semana


Thom Yorke - Jetstream.mp3
God Is An Astronaut - Post Mortem.mp3

Led

E então o situacionismo, Dr. Pacheco?

"Alguém queixava-se de que estava a ser vítima de extorsão e quis ir ao ministério para denunciar isso. Segundo Pacheco Pereira o ministro deve ser suspeito porque não foi ao Ministério Público. Pacheco Pereira deveria fazer um esforço para ser, ou pelo menos para parecer mais honesto.

Também é estranho que Pacheco Pereira que anda sempre tão preocupado com a central de comunicação que controla os órgãos de comunicação social não se pronuncie agore sobre quem os controla, principalmente os que pertencem ou são dirigidos por gente do PSD."

in, Jumento

Led

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Do histerismo

Uma trampa vergonhosa, esta perseguição a José Sócrates. E mais uma vez, tal como o houvera sido em 2005 e mais recentemente no caso dos processos relacionados com a suspeita de ilegalidade nas habitações projectadas pelo mesmo José Sócrates (ultimamente arquivados mas estranhamente esquecidos pelos mesmos que levantaram as suspeitas), o mesmo irremediável provincianismo e academismo de toda uma imprensa nacional sequiosa pelo mais pequeno indício de escândalo alheio. E a oposição secretamente regozijada no interior da sua carapaça de formalismo institucional, inebriada com a dádiva fortuita. E de imaginar que todas estas suposições tiveram a sua origem numa denúncia anónima (como é próprio de gente idónea e corajosa) enviada para o Ministério Público que associava o nome de Sócrates e de sua mãe no processo de um suposto licenciamento danoso do Freeport mas de uma forma descontextualizada com o resto do documento ... Sim, uma denúncia anónima, senhores astutos jornalistas! Esse é um pormenor importante, ou não interessa para vender uns minutos de exaltação e desconfiança? Uma carta enviada em 2005, num período de plena disputa eleitoral. E agora, convenientemente recuperada, novamente em ano de eleições, novamente quando não se entrevê uma oposição política credível capaz de vencer José Sócrates nas urnas, novamente a mesma fuga de informação, deliberadamente arrastada para amplificar o desgaste, selectiva e dirigida com o mesmo fim. Mas querem mesmo fazer de nós meros imbecis? Nem sequer a menor suspeita, hipótese, lampejo, fímbria de faísca de que tudo isto seja (também) uma campanha orquestrada? Mas é demasiada tanta parvalheira presuntiva. O exemplo de Ferro Rodrigues não fez esta gente repensar os perigos que advêm do manuseamento (ilegal) de fugas de informação e do deslumbramento com o poder gratuito que a imprensa ainda conserva neste país. Excesso de jornalistas para o país que consomem. Excesso de jornalistas para o jornalismo de sempre. Excesso de pensadores-analistas-comentadores-críticos-observadores para as mesmas conclusões enxutas afinadas no mesmo tom. Excesso de alarmismo e tremendismo para a alarmante e tremenda falta de substância. Esses gazeteiros inúteis e aduladores do justicialismo novelesco. Esses vitelinhos instrumentalizados que mal conseguem esconder o histerismo de um novo caso para preencher o vazio noticioso. Essa tecnocasta de papagaios excitados e encarrapitados nos poleiros da televisão e da imprensa escrita, muito sofisticados e muito preocupados, muito desafrontados e despachados, todos iguais entre si, traficando manchetes cínicas sem nunca se comprometerem absolutamente. Dispondo cuidadosamente os elementos da neblina de desconfiança na extensão que pretendem, para que o bovino espectador chegue ao desenlace que ambicionam. Teóricos sintéticos das presunções-supeitas-hipóteses-suposições-conjecturas. Teóricos do teatro e da novela sul-americana. Esses muito satisfeitos asnos besuntados de estrangeirismos e de lugares comuns, todos esses parasitas sem escrúpulos do mediatismo informativo e dos podres que a democracia participativa lhes oferece, a esburgarem os ossos de um país já sem ossos, e deliciadamente entretidos em repulsivas e garganteadas campanhas pela demolição do bom nome das pessoas. “Até quando é que pode lutar contra as manchetes, Sr. Primeiro-ministro?”, pergunta um néscio da Sic Notícias. “Já ponderou em demitir-se, Sr.Primeiro-ministro?”, pergunta outro autómato da TVI. Tudo isto num país em crise em ano de eleições e a carecer de seriedade e estabilidade…tanta bestialidade civilizada por metro quadrado. Então aqueles remelosos chorões e populistas da TVI…sempre a malharem impunemente. Tanta indecência revanchista. Santo país da coscuvilhice comadreira do maldizer, agora sem quaisquer vestígio de valores. Repito, sem quaisquer valores.

Uma fadiga imensa, os nervos em desalinho e uma zoeira de febre gripal no toutiço. Desligar a televisão, sair da internet, arrumar o jornal. Desanuviar…

Led

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um país viciado

(...) Este tem sido, indiscutivelmente, o Governo que mais tentou reformar o que precisava de ser reformado, mexer nos famosos 'direitos adquiridos' das corporações que vegetam à custa do Estado e que são o factor primeiro para o nosso eterno subdesenvolvimento. Sócrates tem esse mérito, o mérito de o ter tentado, sozinho e contra todos. Mas, assim, não podia vencer e não venceu.

Vieira da Silva, talvez o melhor ministro deste Governo, conseguiu levar a cabo provavelmente a única reforma conseguida e essencial: a do financiamento da Segurança Social, que evitou que, num horizonte de não mais do que dez ou quinze anos, não houvesse dinheiro para pagar pensões a ninguém. Mas falhou na ténue revisão da legislação laboral, que os sindicatos e o PCP combateram por todas as formas. Agora, por exemplo, o Tribunal Constitucional veio declarar a inconstitucionalidade da norma que previa o alargamento do período experimental de 90 para 180 dias, antes da passagem de um trabalhador a efectivo. Orgulhosamente, o TC defendeu os princípios do "direito ao trabalho" e da "segurança laboral", tão caros à nossa patética Constituição. Magnífico! E saberão os excelentíssimos juízes quais serão as consequências disso, num momento em que, no mundo inteiro, as empresas despedem e fecham, porque a economia estagnou e não há trocas nem o dinheiro circula? As consequências é que haverá ainda menos empresas a admitir trabalhadores ou, as que o fizerem, findo o período de 90 dias, despedem-nos ou passam-nos a recibo verde - sem direito a Segurança Social, férias, pagamento de horas extraordinárias ou quaisquer outras regalias de que beneficiam os privilegiados que, como os juízes, têm emprego certo e garantido para toda a vida e salários pagos religiosamente no final de cada mês.

Oiço também Manuel Carvalho da Silva (que tenho por pessoa séria e preparada) anunciar um ano de luta dos "trabalhadores" em defesa do aumento de salários e pensões, porque, sem isso, diz ele, a crise não será ultrapassada. Ora, ele não ignora que, com isso, é que a crise explodirá, com mais e mais empresas a falirem e mais e mais trabalhadores e famílias lançadas para o desemprego. E quando se sabe que este ano, e em resultado da crise, não há inflação a comer salários - pelo contrário, o perigo é a deflação e o desemprego - a sua proposta só pode visar uma política de terra queimada. Não por acaso, em ano de eleições.

A política de reformas e a própria necessidade de cerrar fileiras para enfrentar os tempos difíceis que aí vêm encontram pela frente uma grandiosa e organizada resistência de vários interesses contraditórios confluentes: a cartilha leninista do PCP, seguida à letra pelos sindicatos que lhe prestam obediência, num quadro político que hoje é verdadeiramente terceiro-mundista; a resistência tenaz de todas e cada uma das corporações em aceitar abrir mão de privilégios imorais e insustentáveis para o país; a cumplicidade activa de um corpo judicial que ignora como funciona o país real e que protege das reformas tentadas todas as outras corporações, com receio de que finalmente chegue a sua vez; a atitude acrítica de muita imprensa que adora a rua e o conflito como fonte de notícia e a quem os sindicatos e as corporações servem prestimosamente variadíssimas photo-oportunities e motivos de primeira página; e, enfim, a absoluta falta de sentido de Estado das oposições e, em particular, do PSD, que não resistem à mentalidade de que quanto mais complicada for a vida do governo melhor é para eles. Todos partilham da crença suicida de que pior do que tudo é o país poder tornar-se governável e alterarem-se coisas que são um adquirido nacional: termos a saúde mais cara do mundo, o maior e mais inútil desperdício de dinheiros públicos numa Educação que não funciona, uma Justiça que se arrasta em autocontemplação incapaz de cumprir o essencial daquilo que justifica a sua existência, uma produtividade laboral que é sistematicamente das mais baixas da Europa e que parece querer assim justificar uma economia com lugar para salários indecentes e livres tropelias do capital.

Numa notável entrevista ao último número do "Sol", Eduardo Barroso explica de forma arrasadora como é que as reformas tentadas pelo ex-ministro da Saúde, Correia de Campos, eram essenciais para melhorar o serviço e conter gastos. E como é que elas foram derrotas "por pressão da rua e da imprensa". O mesmo destino terão grande parte das reformas tentadas por Maria de Lurdes Rodrigues na Educação. Não porque não tenha razão, mas precisamente porque a tem. Mas isso é o pior que pode acontecer a alguém em Portugal: ter razão contra os interesses instalados. “

Miguel Sousa Tavares, Expresso (05-01-09)

Led

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Evangelho Segundo Pacheco Pereira

Sinceramente já fatiga a constante verborreia paranóica e vitimizante de Pacheco Pereira… Ele é o incessante queixume em relação a uma suposta instrumentalização à esquerda no DN, ou de um excesso de propaganda governamentalista na RTP ou ainda a contínua desclassificação de todo e qualquer jornalismo que não obedeça à sua própria agenda política (o mesmo Pacheco Pereira que acha que a imprensa é tendencialmente de esquerda em Portugal…só para rir). Qualquer jornalista tem agora de inteirar-se antecipadamente onde vive o grande Pacheco Pereira antes de escrever seja o que for que possa ser apreciado como suspeito pelo grande guru político da blogosfera, o grande detentor do exclusivo da verdade. Mas são compreensíveis este toques burgueses de censor informativo dada a sua função de director espiritual do “insuspeitíssimo” jornal Público do igualmente do “insuspeitíssimo” José Manuel Fernandes, a parelha neo-purista (e “neo-” muitas outras coisas) do momento. Mas por vezes chega a ser patética tanta lamúria conspirativa a roçar a histeria monomaníaca. E queixa-se e lamenta-se e aponta o dedo ao silenciamento das opiniões contrárias (a dele, claro…que opina com tão pouca frequência) e ao jornalismo de causas dos outros que não é verdadeiro jornalismo e à contínua perseguição política de que o próprio é sujeito por essa turba desmiolada (de esquerda, claro), sempre resmungando rabugento pelo seu blog, na Quadratura do Círculo, no jornal Público… Todos os outros coniventes com as forças do mal e ele, orgulhosamente só no seu distinto palanque, o grande herói na sua destemida cruzada pela pureza de princípios, ele sabe o que é fundamental e o que não é. Grande ovação ao nosso ideólogo de serviço! Naturalmente, e se calhar, humanamente, procura convencer-nos de que pretende apenas a defesa dos princípios: ele defende são os fins. O que lhe interessa, na realidade, e aqui entre nós, é que vamos todos a par ou, se possível ele um bocadinho adiante. Ele que é hábil, sabe que acusações deste género não se pode responder, porque há sempre curiosos à volta que vão aproveitar-se do que ouviram. Mas o que toda a gente que o lê ou ouve já se apercebeu há muito é que ele pretende sempre apresentar-se como vítima e dar largas ao seu complexo de perseguição. Mas esta é uma questão recorrente de quem já foi da esquerda radical, decidiu transmutar-se para a direita e nunca mais descansou, ao longo da vida, de esconjurar em público os espectros ideológicos do seu passado. Há uns tempos envolveu-se involuntariamente (e aqui involuntário significa somente usando como intermediário José Manuel Fernandes) numa polémica com a jornalista Fernanda Câncio, tudo porque houvera admitido numa entrevista ao DN que existia uma cruzada declarada contra José Sócrates no jornal onde escrevia e que até concordava com ela (espanto dos espantos!). A análise da frase feita pela Fernanda está aqui no blog 5 dias e aconselho a todos os interessados a leitura. A frase acabou por dar azo a uma acesa discussão, da qual José Manuel Fernandes acabou por aceitar o papel medíocre de defesa da sua dama. O que é facilmente reconhecível é que o Público está neste momento a viver da memória, a degradação editorial e a obsessão patente com o papel de opositor ao governo fazem-nos ter saudades do antigo Público de Vicente Jorge Silva, pelo menos este sempre se esclareceu ideologicamente e conseguia tudo o que o jornal actual não consegue, definir uma posição institucional e ser verdadeiramente pluralista. Mas cansa-me este mau hábito de Pacheco Pereira de envolver sempre tudo numa névoa de suspeição para fugir à política real dos números e dos factos (as lições que leva de António Costa na Quadratura do Círculo chegam a ser confrangedoras). Cansa-me que volte mais uma vez à carga falando da falta de isenção no DN, como se ele não fosse parte da parcialidade do Público. Cansa-me vê-lo a falar de política doméstica e cumprir uma agenda política, ainda por cima fazendo-se sempre crer como estando acima das ideologias. Cansam-me estas manobras surdas para defesa de Manuela Ferreira Leite, uma líder visivelmente fraca e sem estaleca para liderar o maior partido da oposição. Um outro Pacheco Pereira conseguiria facilmente reconhecer isto a milhas. Mas esse é outro Pacheco Pereira, um notável historiador.

Led

Palo Alto

In a city of the future It is difficult to concentrate Meet the boss, meet the wife Everybody's happy Everyone is made for life



Please press the tag above for some minutes of pleasurable well-educated urbanized experience (and then you should go to work as a good and proficient employee)


Led

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Change We Can Believe In

O pior pré-julgamento criado com a entrada de Obama na Casa Branca será a expectativa de que a radicalização de posições em torno dos EUA diminua instantaneamente com o início de funções. Para já a mudança tem sido do campo do abstracto, todas as conjecturas permissíveis porque a política ainda passeia de mão dada com os chavões excelsos com os quais todos concordamos (a aura de optimismo atinge contornos raros: o seu índice de popularidade chega aos 84%). Mas o ódio institucionalizado anti-americano é ideológico e por isso de teor emocional. E não há razão iluminista que nos proteja da abnegação ao ódio grosseiro da última década. Por outro lado, a UE é uma Grécia antiga estiolada em jogos de sofismas. Sem unidade e sem capacidade de mobilização poderá recair no erro de deixar a iniciativa de resolução dos conflitos externos de novo para os EUA, a projecção formatada da nossa impotência e culpa reprimida no país do pragmatismo e dos hambúrgueres. E esta é uma das maiores mistificações do nosso tempo (e a mais sedutora). Mas um homem precisa de um mito para ir vivendo. E no meio de tamanha crise de valores que convivemos todos os dias (económica, política, social, religiosa, ambiental) e em face da hostilidade universalizada facilitada com a incompetência grosseira do período “W” dos últimos 7 anos, dificilmente descortino um caminho de ampla aceitação (como a que assistimos nos 2 meses precedentes) para a administração Obama ultrapassar os espinhosos obstáculos que se lhe deparam no horizonte imediato. Obama já tem um lugar na história pelo significado cultural da sua eleição mas o risco é tanto mais elevado consoante a fasquia gerada em torno dele. Será ele capaz de corresponder? Seremos nós capazes de o equivaler e de responsavelmente separar o essencial do acessório? Esperemos que sim. Num tempo de desnorte e descrença disseminada, acreditemos por uma vez que sim. Talvez seja esse meio caminho andado para a mudança que todos desejamos mas da qual ainda desconhecemos os reais contornos.

Led

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Neil Finn and friends - 7 worlds collide


Da esquerda para a direita: Ed O’Brien (Radiohead - Guitar), Phil Selway (Radiohead - Drums), Neil Finn (The Crowded House - vocals, guitar), Tim Finn (ex-Split Enz - vocals), Johnny Marr (ex-The Smiths - Guitar), Eddie Vedder (Pearl Jam - vocals, guitar), Sebastian Steinberg (Soul Coughing - Bass), Lisa Germano (vocals).

Agora é esperar pela versão 2008...

Led

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Momento delirante de fim-de-dia : Kibe Loco

Tocava seu timbal o ano inteiro...alegrando todo esse povo incógnito...

Toda uma densa camada de erudição metafísica num só vídeo.

Led (sim, queimei de vez...)

O PEV é um partido sério

Há algo que se corrompe inelutavelmente no caminho entre o ser-se fiel a princípios e o ser-se fiel a ideais. A firmeza de ideais pode ser uma forma vistosa de camuflar a falta de substância intelectual. Assim o é frequentemente na política. Apesar de todo o histórico convénio tácito e rico em virtudes que envolve a expressão, ter firmeza de ideais é muitas vezes reconhecer uma asneira mas permanecer nela. Na condição, todavia, de nunca reconhecer a asneira publicamente. Ninguém exalta a firmeza de ideais de alguém, se nada põe em causa as doutrinas que defende. Não se diz de ninguém que tem firmeza de ideais, se toda a vida afirmar que a terra é redonda. Só há firmeza de ideais, se uma doutrina se mostrou errónea e se persiste nela (como o benfica). A firmeza de ideais (não a de princípios) é portanto um acto de orgulho (ou de pedantismo, ou de estupidez ou de ridículo, consoante o tamanho do valor que é posto em causa). Mas o ser-se sério (e inteligente) é de outro calibre. Ser-se sério na política é antes de mais, o ser-se disponível.

E todo este longo raciocínio defeituoso e grosseiro porque o primeiro-ministro denunciou hoje no debate parlamentar o PEV como um apêndice camaleão do partido comunista em resposta a uma acusação de Heloísa Apolónia de falta de seriedade. A resposta da líder parlamentar foi a esperada (a mesma dos últimos 30 anos), “Falta de seriedade é prometer governar à esquerda e depois direita, direita, direita...” E nesta velha cortina anacrónica politiqueira e catequista se esbate a discussão política em Portugal desde o 25 de abril. "Esquerda"-"Direita"-"Esquerda"-"Direita"-"Esquerda"-"Direita"...sempre o mesmo discurso maníaco e quadrado! Como não perceber que não há somente uma forquilha para a esquerda e a direita? Raio de tísicos ideólogos vaidosos mais a prosápia pueril e os dividendos morais da coisa! Como não perceber que as questiúnculas algébricas sobre a posição precisa e milimétrica da ideologia são tudo menos essenciais? Há nuances e tendências e deflexões e inflexões “ideológicas”, cujas poucas fronteiras se diluem cada vez mais como o próprio mundo. Perder tempo com isto é que é ser-se pouco sério. Sejamos competentes antes de mais, pode ser? O resto são reminiscências retóricas e decorativas de um mundo há muito prescrito.

Led

sábado, 10 de janeiro de 2009

O lugar ideológico dos insurgentes de sofá

“(...) Maior silêncio ainda caiu sobre os responsáveis pela morte da família de Huda Ghaliya, a menina que o mundo inteiro viu chorando sobre os cadáveres de toda a sua família, numa praia de Gaza, em 2006. Os jornais ocidentais, com a mesma diligência com que a promoveram o novo ícone palestiniano, também o esqueceram quando se soube que a sua família não morrera vítima de um ataque israelita mas sim de armas palestinianas.

Os exemplos desta fábrica mediática de mártires para ocidente consumir levam-nos invariavelmente à constatação de que existe no ocidente uma espécie de "insurgentes de sofá".

Tal como os treinadores de bancada raramente praticam qualquer desporto, também estes "insurgentes de sofá" jamais pegariam numa arma ou fariam um atentado. E não o fariam porque moralmente não seriam capazes e também porque este mundo ocidental do qual dizem tanto mal lhes tem proporcionado invejáveis padrões de vida.

Israel torna-se assim no "lugar ideológico" que lhes permite acharem-se ideologicamente coerentes enquanto usufruem o que de melhor a democracia a que dantes chamavam burguesa tem para oferecer.”

Led

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

domingo, 21 de dezembro de 2008

Top 15- 2008

Como habitual no final de cada ano, aqui deixo as minhas 15 preferências para os álbuns saídos durante 2008. Se bem que a primeira posição do top foi para mim sempre indiscutível (tal como “In Rainbows” (Radiohead) o era em 2007, “Pearl Jam” em 2006 e “Future Perfect” (Autolux) em 2005), todas as outras foram naturalmente sofrendo alterações na colocação consoante a volubilidade da minha disposição.

1. Bon Iver – For Emma, Forever Ago

Assim, é sem qualquer surpresa que Bon Iver ocupe o primeiro lugar do top. Não é habitual que um conjunto de canções tão humildes e descomprometidas apareçam com frequência na compressão imediatista do mercado musical contemporâneo, francamente obcecado com “a próxima tendência” que igualmente abdica com rapidez. “For Emma, Forever Ago” demonstra com brilhantismo uma evidência indelével – que por qualquer quantidade de produção aparatosa e lustrosa recheada de letras pré-formuladas e açucaradas e exercícios cosméticos de estilo, nada se pode comparar à honestidade de um homem com a sua guitarra e emoções reais. Por isso a música delicada e despojada de Justin Vernon (Bon Iver) absorve-nos por completo até à impenetrabilidade da nossa intimidade. Não tenhamos dúvidas, a batalha catártica de Justin Vernon com a sua desilusão, é uma batalha em todos nós.

2. Mogwai – The Hawk is Howling

Em segundo surgem com naturalidade os Mogwai com o seu 7º disco de estúdio “The Hawk is Howling”. E que mais posso dizer desta banda senão que é uma das minhas predilecções pessoais há quase uma década? Os Mogwai raramente colocam letras nas suas músicas, mas a poesia está latente por toda a sua obra e este 7º disco é disso um excelente exemplo. Para mim “The Hawk Is Howling” resume o melhor dos Mogwai, o pendor etéreo dos 3 melhores discos da banda - “Young Team”, “Ten Rapid” e “Rock Action”- com o acréscimo experimentalista sintético de “Happy Songs...” e “Mr Beast”. Enquanto a música de bandas comparáveis como Explosions in the Sky ou Sigur Rós é evocativa de paisagens majestosas e impessoais, a música de Mogwai liberta emoção bruta de um modo extraordinariamente conciso e açambarcador. Mestres do fornecimento de tensão após tensão até que a libertam suavemente na corrente sonora do clímax, com instrumentos que conseguem amargurar e dulcificar ao mesmo tempo, esta é uma obra que nos deixa a levitar em múltiplas dimensões. Existe aqui a brutalidade do metal, a textura sintética da electrónica, as melodias de cordas dos épicos e depois aquela secção rítmica do Martin...que coisa impressionante! Um excelente, excelente, excelente disco de uma banda completamente indispensável (e um concerto a não perder em Fevereiro na Aula Magna).

3. Youth Group - The Night is Ours

Em seguida, temos Youth Group, um grupo estranhamente ainda pouco divulgado no continente europeu mas que me conquistou logo em 2005 com o seu segundo álbum “Skeleton Jar“ e me foi atraindo progressivamente com o terceiro álbum “Casino Twilight Dogs” que continha a versão rockeira da sempre “kitschie” e etérea canção “Forever Young” dos Alphaville. The “Night Is Ours” é contudo distinto de todos os outros discos da banda em muitos aspectos, sendo um deles o seu processo de gravação. O quarteto australiano gravou o seu quarto álbum num depósito abandonado do porto de Sydney conseguindo criar um ambiente singular que se sente por todo o disco. O resultado é uma obra coesa e convincente, combinando com destreza e modéstia géneros, instrumentos e atmosferas aliados aos brilhantes recursos letristas de Toby Martin. O disco mostra o progresso firme de uma banda experimentando novos sons mas ainda assim mantendo sólida a paixão delicada e melancólica pop que edificou a excepcionalidade desta banda. "Dying At Your Own Party" é uma canção simplesmente brilhante.

4. Deerhunter – Microcastle /Weird Era Cont.

Na 4ª posição aparece a banda que andou a abrir concertos dos NIN este Verão com o magnífico terceiro álbum “Microcastle”, seguramente dos mais ouvidos pela minha pessoa na segunda metade deste ano. “Microcastle” pega nos elementos mais espaciais e hipnóticos do afamado disco anterior “Cryptograms” e acrescenta-lhes um pouco mais de melodia e aperfeiçoamento de estúdio. O resultado é uma amálgama narcótica de harmonias surpreendentemente viciante. Absolutamente recomendado para todos os vanguardistas da música alternativa que ainda apreciam melodia.

5. Cat Power – Jukebox

Em seguida, surge a carismática Cat Power com o seu segundo álbum de covers “Jukebox”, a sequela natural e evolutiva ao “The Covers Record” de 2000. Um disco genial onde Cat e a sua excelente banda de apoio refazem temas de outros artistas (incluindo a própria) criando a ilusão que sempre foram seus. Mas esta é também uma Cat mudada, mais estável e amadurecida emocionalmente. E essa mudança nota-se perfeitamente na nova versão de “Metal Heart” incluída neste disco. Não mais um hino sussurrado ao folk, mas uma carta de amor com bateria e piano à antiga e frágil Marshall que outrora a escreveu por volta de 1998. “You’ll be changed”, ela canta. Não podia estar mais perto da verdade. E nós tranquilizamo-nos, porque amamos a figura.

6. NIN – Ghosts I-IV

Na 6ª posição coloquei o disco experimental “Ghosts I-IV” (aka Halo 26) dos NIN, o sétimo grande lançamento da banda de Trent Reznor pela primeira vez sem o apoio editorial em quase 20 anos de carreira. O álbum é uma colecção estilhaçada de harmonias concebidas durante os anos de preparação de “Year Zero” (análogo na forma à experiência “Pastichio Medley” do EP “Zero” dos Smashing Pumpkins), uma compilação de texturas sonoras sem uma referência e direcção lógica, expandindo o seu som sintético e industrial para instrumentos mais orgânicos como marimbas, banjos ou guitarra de slide. No conto geral é um disco suave e inteiramente ambiental que deixou muitos fãs surpreendidos/desiludidos. A mim seduziu-me por completo pela originalidade e risco calculado e por isso merece estar no top 15, à frente do “The Slip”, o grande lançamento da banda no ano de 2008.

7. Portishead – Third

A 7ª posição é ocupada pelos Portishead com o seu (mais que aguardado) terceiro álbum em 14 anos de carreira após um hiato de 11, simplesmente intitulado “Third”. O disco mostra uma despedida do som mais trip hop dos álbuns anteriores, aqui explorando temas mais sintéticos, minimalistas, duros e repletos de escuridão e claustrofobia cuja apenas a voz transcendente e delicada de Beth Gibbons consegue mais uma vez contrapor com assombro. "Silence", "Hunter", "The Rip", "We Carry On" e o single introdutivo "Machine Gun" são canções absolutamente imprescindíveis.

8. Coldplay – Viva La Vida or Death and All His Friends

Na 8ª posição aparecem os Coldplay com o seu pretensioso mas bem sucedido álbum “Viva La Vida or Death and All His Friends”. Há cerca de um mês foi lançado também o EP “Prospekt's March”, uma extensão do disco contendo alguns temas inéditos (como o magnífico “Glass of Water”) e outros mais desprezíveis (a versão da “Lost” com o rapper da moda Jay Z arrasou por completo a essência da canção) que, na minha opinião, deveriam ter sido incluídos no álbum de modo a criar uma obra mais multifacetada e consistente. De qualquer maneira, já fiz anteriormente a análise ao disco e portanto não vou entrar em pormenores. Apenas volto a reforçar a ideia de que é um erro desdenhoso confundir sucesso comercial com o melhor ou menor valor de um disco e de uma banda. O preconceito funciona para os dois lados e eu sinceramente estou-me marimbando para os dois lados sectoriais do eixo, os que amam e os que odeiam apaixonadamente.

9. Death Cab For Cutie – Narrow Stairs

Na 9ª posição surgem os Death Cab For Cutie com “Narrow Stairs”. Após o equívoco mediático que confundiu muita gente (incluído eu próprio durante uma semana – ver notícia aqui) depois de um internauta ter decidido disponibilizar o disco “Home Waters” (do final de 2007) da outrora desconhecida banda alemã Velveteen com o nome de “Narrow Stairs” (incluindo o nome das canções) e divulgando-o como o novo disco dos DCFC, só após um mês e com a saída do verdadeiro disco dos DCFC é que se chegaram a duas conclusões: que basta um idiota para embrulhar milhares de fãs ávidos e, pelo lado mais positivo, que os Velveteen também são uma excelente banda. Mas voltemos ao autêntico “Narrow Stairs”, um magnífico álbum! Quem duvide que ouça cuidadosamente o single improvável de quase 9 minutos de duração “I Will Possess Your Heart", um tema que começa com 5 minutos de crescendo sem letra antes de encetar numa obsessiva carta de amor. E é assim todo este disco, escuro e compresso ( do qual “No Sunlight” e “Cath...” são mais dois bons exemplos) e absolutamente irrepreensível tecnicamente. O melhor disco da banda até à data.

10. Beck - Modern Guilt

Em 10º, o último disco do nosso (e único) cientologista favorito. Como nunca fui um fã típico de Beck (o meu álbum favorito é o “Sea Change”) atrevo-me a dizer que este é um dos melhores discos deste alucinado multi-instrumentalista californiano em 14 anos de carreira. Há aqui a destreza técnica de “Mellow Gold” e “Odelay” e o intimismo franco do “Sea Change” , deixando ainda espaço para a ironia e obliquidade lírica de “Mutations” e “Midinite Vultures” . “Modern Guilt” é portanto provavelmente o disco mais completo e equilibrado (e viciante também) de Beck em muitos anos depois da relativa desilusão com “The Information” e “Guero”.

11. NIN – The Slip

Na 11ª posição surge o disco “The Slip” (aka Halo 27) dos NIN cujo processo de lançamento via digital transpôs mesmo o fenómeno de marketing “In Rainbows” ao serem disponibilizadas canções de elevada qualidade (ficheiros WAV) e de um modo absolutamente grátis (o download pode ainda ser feito aqui). “The Slip” é também o álbum mais directo e conciso da carreira dos NIN. Não há aqui qualquer vestígio das típicas introduções com crescendos demorados e meticulosos, entrando logo em acção com o tema agreste "1,000,000," e assim mantendo a intensidade e tensão durante metade do disco até gradualmente abrandar nos temas mais suaves e orgânicos do final dos quais "The Four of Us Are Dying" é o mais emblemático. “The Slip” serve como contraponto às excursões temáticas e instrumentais do “Ghosts I-IV”, recuperando o minimalismo sintético e áspero dos idos tempos de “Pretty Hate Machine” ou “The Downward Spiral” e acabando em atmosferas mais alusivas a “The Fragile” . Por outras palavras, um resumo compactado da carreira dos NIN e uma amostra das várias personagens artísticas de Trent Reznor ao longo dos 20 anos de carreira.

12. Uzi & Ari – Headworms

Na 12ª posição surgem Uzi and Ari com o seu mais recente “Headworms”. Se bem que na minha opinião inferior ao anterior registo “It Is Freezing Out” (2006) e mesmo ao disco mais pós-rock “Don’t Leave In Such a Hurry” (2004), “Headworms” mantém os níveis de exigência altos, com temas suaves e delicados que continuam a fazer lembrar o melhor de The Postal Service e dos Radiohead de alguns temas do “Kid A”. Uma excelente crítica em português ao disco pode-se encontrar aqui. Também convém divulgar mais uma vez ao interessados que estes rapazes vêm tocar a Leiria dia 22 de Fevereiro de 2009, concerto integrado na sua segunda tourné europeia.

13. Snow Patrol - A Hundred Million Suns

Na 13ª posição aparecem os Snow Patrol com o seu 5º álbum “A Hundred Million Suns” desde que o excelente “Songs for Polarbears” saiu em 1998. Foi com satisfação que ouvi este disco após o excessivo abuso de sacarina pop que foi “Eyes Open”. “A Hundred Million Suns” é a obra mais completa da banda até então, a sua produção imaculada e energia sónica foram confeccionadas para catapultar a banda para os primeiros lugares do pop rock moderno. Nada de mal nisso desde que usado com moderação. Tal como “You’re All I Have” e “Chasing Cars”, ambos mega-singles do álbum anterior, canções como “Take Back the City” e “If There’s a Rocket Tie Me To It” repetem a formula cíclica, ambas com apenas meia dúzia de notas e uma simplicidade que ajuda a maximizar o potencial da canção. Mas “A Hundred Million Suns” também anuncia novas curvas no repertório da banda, desde “Lifeboats” (uma espumante e discreta canção de amor cheia de mid-tempos e glissandos harmónicos) ao suave hip-hop de palmas “The Golden Floor”, até à ode sinfónica final de 16 minutos de duração “The Lightning Strike”, uma composição em 3 partes de uma grandeza celestial e experimentalismo épico bem sucedido. E é aqui que os Snow Patrol sempre funcionaram bem até alturas de “Final Straw” – na intersecção entre pop/rock acessível e de algo mais desafiante, quer seja um arranjo inesperado ou uma reviravolta melódica interessante. É esta fronteira frágil que a banda tem de saber explorar no futuro sob pena de cair na trivialidade.

14. The Samuel Jackson Five - Goodbye Melody Mountain

Na 14ª posição surgem os noruegueses The Samuel Jackson Five com o seu 3º álbum “Goodbye Melody Mountain” uma das revelações dos pós-rock dos últimos anos. Neste disco eles pegam na fórmula minimalista dos discos anteriores e expandem o som à sua volta, chegando a adicionar novos elementos sonoros (metal e jazz). O que estes tipos já entenderam é que a música está em movimento perpétuo e por isso uma banda que queira crescer tem de arriscar sair da sua zona confortável, misturando novos sons e estilos musicais. A decisão de uma banda de se aventurar em novas temáticas é a principal razão que me leva a considerá-los como a típica banda de pós-rock, pondo de lado outros grupos demasiado ordeiros para mudar o seu som (ou fazê-lo da pior forma, como os Sigur Rós). Não é um disco fácil, eu próprio demorei várias audições até começar a gostar. É um disco demasiado sofisticado, demasiado subtil, demasiado inteligente para ser imediatamente acessível. Mas ofereçamo-lhe a atenção cuidadosa que merece (ouvir com phones) e eu garanto que irão beneficiar das vantagens.

15. Stereolab - Chemical Chords

E na última posição do meu Top15 de 2008 surgem os aliens surrealistas Stereolab com mais umas das suas doses refinadas de experimentalismo pop-lounge anglo-francófono dos anos 60 desta feita felizmente com um conjunto de temas acessíveis e orgânicos em detrimento dos sintetizadores analógicos inabordáveis dos últimos tempos. “Chemical Chords” é um álbum muito interessante e estranhamente agradável (ponham estranho nisso) mesmo para quem como eu nunca partilhou do fascínio intelctualóide com a banda britânica. Para ouvir com muita atenção.

Em resumo:

1. Bon Iver – For Emma, Forever Ago
2. Mogwai – The Hawk is Howling
3. Youth Group - The Night is Ours
4. Deerhunter – Microcastle /Weird Era Cont.
5. Cat Power – Jukebox
6. NIN – Ghosts I-IV
7. Portishead – Third
8. Coldplay – Viva La Vida or Death and All His Friends
9. Death Cab For Cutie – Narrow Stairs
10. Beck - Modern Guilt
11. NIN – The Slip
12. Uzi & Ari – Headworms
13. Snow Patrol - A Hundred Million Suns
14. The Samuel Jackson Five - Goodbye Melody Mountain
15. Stereolab - Chemical Chords

Menções honrosas:

M83 - Saturdays = Youth
REM - Accelerate
The Cure - 4:13 Dream
Kings of Leon - Only By The Night
Los Campesinos – Hold On Now, Youngster
Patti Smith and Kevin Shields - The Coral Sea
Unkle - End Title…Stories For Film
Nada Surf – Lucky
Elbow - The Seldom Seen Kid
Fennesz – Black Sea

Bom natal!

Led

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Volta e meia

Volta e meia e para atestar a qualidade da linhagem, lá aparece um tipo a defender para si o seu quinhão de causas sociais e a autenticidade do seu pólo político consubstanciado nas vezes que arremessa a sua verdade exclusiva e genesíaca contra todos os ismos que ostentam gosma burguesa na peugada, amesquinhando o sujeitículo acomodado do bloco central, esse tipo sem ética corrompido pela base que nunca leu livros progressistas neorealeiros e dado a essa coisa chilra e raquítica do diálogo e da sensatez, à tineta pífia do pormenor com a sustentabilidade e a responsabilidade. O tipório conhecedor do real e do trabalhador seu correligionário é um gajo desafrontado e seguro de si, de fórmulas milagrosas prontas na algibeira, de peitaça larga para a bordoada ideológica, que come bem, bebe bem, fornica bem, de ideias limpas, descomplexadas, tipo porreiro e solidário com as minorias, dorme do lado bom do humanismo, veja-se a nossa sorte, escasso de metáforas quando é preciso, companheirão, sujeito vivido, calmo e teso, nada de subtilezas sofísticas quando é preciso, pão pão, queijo queijo, escorreito, destemido, atestado de tomates e de glóbulos vermelhos e de lições para dar ao mundo.

Volta e meia aparece também a História cheia de estilhaços e sangue messiânico a desdizê-lo. A História, essa apóstata imunda e prepotente.


Led

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Alma Mater

Os Moonspell acabam de regressar de uma intensa tourné norte-americana e canadiana (a sétima incursão por estes territórios) parcialmente partilhada com os deuses noruegueses do black metal Dimmu Borgir que abrangeu 28 concertos durante cerca de um mês. À média de um concerto por dia em festivais e recintos fechados sempre esgotados, começa a ser constrangedor não lhes reconhecer o mérito com mais veemência por causa da típica desconfiança pelo género musical. Até porque em mais de metade destes concertos do outro lado do atlântico, conseguiram a proeza admirável de serem a principal banda de cartaz tendo sido apoiados por bandas locais. Este mês regressaram à velha Europa, com actuações programadas na Alemanha, Itália, Suíça, França, Holanda, Áustria, Hungria e Dinamarca. Quando muito se fala dos novos artistas portugueses que começam a arriscar mercados inóspitos (desde Legendary Tiger Man, passando por The Gift, Fonzie, X-Wife, Buraca Som Sistema ou David Fonseca), seria bom lembrarmo-nos mais vezes do caso incomparável da banda de Fernando Ribeiro que fez do “estrangeiro” palco principal há mais de uma década. Sem pretensiosismos e vitimizações lingrinhas, tiveram a ousadia suficiente para abandonar o ócio doméstico e arriscar num mercado outrora pouco explorado. Hoje são uma referência para o metal gótico em toda a Europa e inevitavelmente mundial.

Nunca os vi lamentar o fado avesso e o desdém do país materno e são eles próprios que o dizem sem ironias ou falsas modéstias: "É incrível, mas já fomos quatro vezes a Moscovo e nunca tocámos em Évora!"

Bem hajam, rapazes!

Sam The Kid, come pó!

Led