quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Fé Vermelha


“Para quem pensava que o comunismo tinha fenecido de vez, o encontro internacional de partidos comunistas e operários que decorreu no passado fim-de-semana em Lisboa pode ter sido uma surpresa. Ou mesmo um susto. Mas na verdade não foi uma coisa nem outra. Aquilo a que se assistiu foi a recriar das velhas encenações de gongórica solidariedade internacional a pretexto de combater o imperialismo, defender os povos explorados, reafirmar a validade da luta de classes e dar alento a milhares de crédulos. Isto porque os resquícios do comunismo assentam, hoje, não numa prática ( que, essa sim,desabou com os tempos) nem numa teoria ( que a esmagadora maioria dos seus seguidores desconhece profundamente), mas numa fé inabalável. Perdê-la, ou fazê-la vacilar nem que seja só por um momento, é fazer ruir todo um edifício construído à base de frases feitas, soluções utópicas e realidades pouco permeáveis a chavões pré-estabelecidos.

A confirmação do comunismo como base fértil para totalitarismos sangrentos e impiedosos não se coaduna com a repetição de discursos pueris sobre a classe operária ( que já é outra, bem diferente da que Marx ou Engels analisaram nos seus escritos) ou os povos pretensamente ansiosos de se livrarem do capitalismo.

A China, mantendo a capa comunista e o corelativo desrespeito pelos direitos humanos, entregou-se a um capitalismo selvagem que, se por uma lado lhe ampliou a riqueza e os horizontes ( os económicos mas também os da ambição de poder), por outro mantém sob uma quase escravatura milhões de asslariados mal pagos e tristemente servis. Ao Ocidente, no caso chinês, já não incomodam as bandeiras vermelhas ao vento nem a exibição marcial dos rituais comunistas. Não intimidam nem afastam. Pelo contrário, são uma cobertura alegremente folclórica para bem lucrativos negócios mundiais.

O que querem, pois, os resistentes comunistas da cimeira de Lisboa, mesmo os mais devotos ou honestos? Sobreviver, apenas isso. Manter galvanizadas as suas bases de apoio, nem que para isso tenham de mentir, como aliás sempre fizeram: o comunismo, enquanto sistema, deve deter um dos maiores índices de mentiras de toda a história universal. Ou parasitar os muitos podres que a sociedade, infelizmente, ainda lhes oferece: o subdesenvolvimento, a fome, a pobreza, as muitas guerras absurdas que o comércio, legal ou ilegal, de armas alegremente sustenta. Podem ser poucos, podem enganar-se mutuamente acerca da sua verdadeira representatividade ou força, mas isso pouco ou nada importa quando o que está em causa é a manutenção de um cenário que pretende iludir a decrepitude à base da fé. A fé nos “amanhãs que cantam” e na verdade não sabem cantar, a fé num “socialismo” que os seus antepassados políticos enterraram sob as cinzas de milhões de vítimas.

No comício final, o russo Guenadi Ziugannov disse que o planeta “está a ficar mais vermelho”. De raiva? Ou de Vergonha?”

Nuno Pacheco – Público (14-11-06)
Led

4 comentários:

Anónimo disse...

Não estará mais vermelho porque o Benfica é um clube Guiness? Afinal são cerca de 160 mil adeptos do vermelho fora os que não pagam cotas...

Ledbetter disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Ledbetter disse...

Estudante de Marx...J o neoliberalismo é uma inevitabilidade, para o bem e para o mal. O mal será convertê-la num dogma, o bem...dependerá de em grande parte do valor que dermos à liberdade individual. Marx é um grande nome da filosofia e a sua obra aparece hoje ainda com muito interesse para os estudiosos. Mas é uma obra meramente de estudo filosófico que deve apenas fornecer algumas ideias para a construção de uma consciência social no círculos académicos. O próprio Marx , em reposta às interpretações erróneas da sua teoria, declarou que “ a única coisa que tinha a certeza é que não era um Marxista”. Obviamente que em relação à situação política e económica actual e exigências da nossa realidade é completamente inoperante e disparatada. Mas o pior foi o que o comunismo fez da teoria marxista, subvertendo-a até às últimas consequências com os resultados carniceiros que são hoje conhecidos mas que foram sendo omitidos durante muito tempo. Os partidos comunistas europeus pós-guerra fria fizeram pequenas mudanças cosméticas na estrutura mas o fundo fanático e hipócrita continua presente, com o cliché escabroso e intransigente da “superação revolucionária do capitalismo”. Para fazer o quê? Eles não sabem bem (nem nós queremos conhecer), mas também não lhes interessa. Porque eles dependerão sempre da presença do capitalismo para poderem continuar a existir. Como as religiões dependem da morte para capitalizarem a crença.
Beijos e bom trabalho.

Ledbetter disse...

Carreira, concordas de certeza comigo que devemos uma congratulação ao clube das águias, que sempre conseguiu ampliar o n.º de sócios em Moçambique e Angola com acesso a descontos na BP e Mcdonalds que tanto carecem. Guiness é giro, mas tinha mais interesse se pusessem o clube no livro de recordes do vinho tinto D.João I, essa poção dos deuses.