segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Quinto Império: Acordai, Portugal!

Vai para aí uma sarrabulhada mais disparatada....Ouvi há pouco na rádio que existia um qualquer abaixo-assinado (com a conivência vergonhosa da mais distinta apelidada imprensa nacional) exigindo lacrimosamente à embaixada brasileira para emitir um pedido de desculpas oficial por causa daquele Silly moment da Silly Maité naquele vídeo irrelevante gravado há 2 anos. E não é que conseguiram mesmo? Hein? Podem repetir? Mas haverá coisa mais saloia e paroquial de um Portugal absolutamente pequenino, moralista e complexado? Da nação da grandiloquência sebastianista, do cabo Bojador, da grandeza perdida da pátria, do Prof. Hermano Saraiva em tom cavernoso, do “deu novos mundos ao mundo”? Mas não haverá nada mais importante e que nos possa mover a intervir em semelhantes níveis de indignação? Algo que tenha a ver com assessores de presidentes da república, por exemplo... Mas foi nesta bagatela medíocre que resultou a ressaca noticiosa pós-eleicções? Preferia a Gripe A. É que, sem desconsideração, é só uma actriz de novelas!! Mas haverá melhor forma de se estimular o estereotipo que a Maité e muitos brasileiros sempre alimentaram de nós em piadas depreciativas? Estereotipo algo insultuoso, sim. Como em todos. Sem objectividade e sentido autocrítico, também. Que até tenho dúvidas que (os de lá) acreditem realmente nele, mais um misto de desprezo e ignorância. Mas a reacção de muitos portugueses a rasar o histerismo também veio a evidenciar a nossa falta de cultura democrática quando a crítica (que tentava o humor) vem de fora. E até um estereotipo que, aproveito para informar os melindrados nacionalistas, foi criado pelas próprias elites burguesas portuguesas que dominavam o Brasil oitocentista logo após a independência (sim, continuamos os melhores a gozar connosco mesmos). Um estereotipo baseado num preconceito novo-nacionalista, oriundo principalmente das metrópoles do Rio de Janeiro e São Paulo que recebiam as maiores massas de emigrantes portugueses logo após a abolição da escravatura. Emigrantes oriundos de famílias extremamente pobres do norte de Portugal que vieram a ocupar ofícios do pequeno comércio. E aí está! Gente pobre, iletrada e com a abundância de folículos pilosos em zonas recônditas característica de pessoas desesperadas que têm mais em que pensar do que em considerações estéticas. Gente “esquisita”, pensam as muitas Maités daquele enorme país. Mas infinitamente corajosa, principalmente. Estereotipo sem especial afinidade com o Portugal actual, também. Mas um estereotipo que nós, infelizmente anjinhos e paternalistas ou positivamente indiferentes e abnegados, nunca demos grande cavaco (termo escolhido casualmente). E a isto se poderia acrescentar ainda o óbvio do reflexo da medalha corporizada no estereotipo que conservamos do país do futebol, crime, samba e prostituição (ver comentários do Youtube ou fórum TSF). Mas este caso mostrou-nos ainda pior... Vai-se treslendo rapidamente os comentários ao vídeo e a reacção é ainda mais pavorosa. Fica-se absolutamente aterrado com o racismo latente... não só com os comentários dos portugueses, diga-se em abono da verdade. De ambos. E é que estão mesmo bem uns para os outros no nível de indecência. Dos comentários dos brasileiros ressalta um desdém que é típico dos países grandes. Uma arrogância enorme e ao mesmo tempo uma permanente desculpabilização: parece que tudo o que funciona mal no Brasil resulta de termos sido nós os colonizadores há quase 200 anos. E dos Portugueses, um complexo de inferioridade e provincianismo que é verdadeiramente confrangedor e inquietante. Eu acho que este episódio absolutamente irrelevante tem apenas uma pequena vantagem antropológica. Ajuda a dissipar alguns equívocos culturais que existem na relação entre os portugueses e os brasileiros (a sagrada mitologia dos países irmãos). De facto, tirando as novelas e a música brasileira que os portugueses consomem, os portugueses e os brasileiros não se conhecem - os portugueses sabem pouco da cultura brasileira, os brasileiros não sabem nada da cultura portuguesa (o que até é normal, dada a desproporcionalidade 1/20). Os brasileiros vivem mal com a sua história e isso tem a ver com a maneira como se relacionam com Portugal. E os portugueses também vivem mal com a sua história, mais isso já todos nós sabíamos ou então bastaria deslocarmo-nos a Santa Comba Dão. Mais, o caso evidencia que somos parecidos pelo menos num aspecto. Numa enorme falta de respeito que temos por nós próprios. Se a auto-estima dos portugueses é realmente abalada com uma pequenina cuspidela numa fonte do Jerónimos, então vou ponderar emigrar. Para a Argentina, provavelmente. E eu sou daqueles que, apesar de tudo, ainda prefere a Maité ao Scolari.

E o Cavaco, já falei do Cavaco?


Led

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

6 (+6) canções para o fim-de-semana


My Bloody Valentine - You Made Me Realise
The Pains Of Being Pure At Heart - Higher Than The Stars
Death Cab For Cutie - Meet Me On The Equinox
Cats On Fire - Lay Down Your Arms
Thom Yorke - Hearing Damage
Muse - Undisclosed Desires
Concerto For Constantine - Minsk
Black Rebel Motorcycle Club - Done All Wrong
Vampire Weekend - Horchata
Kings Of Convenience - 24-25
Hope Sandoval & The Warms Inventions - Trouble
Bon Iver - Lump Sum (live at Riverside 11-10-09)

P.S. Caso alguma canção ofereça problemas (e.g. lentidão; intermitência) na audição através do leitor do blog: "salvar como" ou "abrir numa nova janela".

Led

3 a.m.

Well its 3 a.m again, like it always seems to be. Drivin northbound, drivin homeward, drivin wind is drivin me. And it just seems so funny that I always end up here, walkin outside in the storm while looking way up past the tree-line. Its been some time…Give me darkness when i’m dreaming. Give me moonlight when i’m leaving. Give me shoes that weren’t made for standing. Give me tree-line, give me big sky, get me snow-bound, give me rain clouds give me a bed time…just sometimes...

Gregory Alan Isakov - 3 a.m.



Led

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Prosa de um funcionário cansado

Adormecer. Ver apagar-se ao longe o ruído do ser-se em colectivo. Ver apagar-se ao longe o ruído do ser-se em disputa e em jactância inútil, deixar para trás toda a matéria terrosa que obriga a ser-se em público e devassidão, dar por suspenso o combate mecânico e a obediência proletária, a necessidade de fazer o seu “número” coreográfico como o trapezista do circo, a agitação e o receio de empenhar expectativas, e os sorrisos palacianos e compassivos, e o linguarejar interminável e estéril, ser o paladino ascético da vida em abandono, apodrecer ao sol indolente da meia tarde, recolher à enseada da eterna promessa e aí quedar, não olhar muito para a abóbada celeste do futuro de um futuro incerto, limitá-lo à sua certeza obtusa, que é breve demais para ser certeza futura. E ser-me em tudo longe...Noite finda, trémulo bruxulear de claridade que ainda resiste. Estender ao morno da quietude. E ser-me em tudo longe...Adormecer...

Led

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Memória sem face nem nome

Uma certa hora de aragem estival, de gotas de chuva fria lucilando no beiral, do aceno final do sol no véu nacarado, de uma certa lua promitente no crepúsculo, do rumor ameno do vento numa madrugada nefelibata. A beleza indistinta que se não sabe dizer. A memória pura sem referenciação. A memória de si mesma. Tão pouco isso que é tanto. Porque é o tudo que isso cifra e fica em nós como a ressonância do mistério que por tudo isso se estende e diz para sempre adeus...


Led

O caminho faz-se a andar

Cansado de te perderes. O astro do firmamento que te conduz e nunca viste perde cintilação e o que em ti era sentido bussolar. Há uma treva cerrada no teu encalço. Há uma treva cerrada para o teu caminhar. E a única máxima que te sobra é a de estares aí parado. Cansado de te perderes. De perdido andares. Não pares.

Led

Snap Shot

Passou a sua vida a elaborar uma frase tão inovadora, tão original e tão bizarra que rapidamente se tornou em máxima irrevogável. Suicidou-se logo em seguida porque se tornou numa Frase feita.

Led

Asilo

Teve em jovem a sua ideologia cativante e temível. Mas envelheceu com ela. E com a velhice as perdas de memória. E daí a obstinação que o tornou num maníaco extravagante e amorável.

Led

Não ser eu toda a gente e toda a parte

O maravilhoso amparo comunicador do novo mundo cibernético. Os fóruns sociais. Como o habitual afluir de expedientes quando a moléstia é insanável. Os fóruns sociais. Disfarçam com deslumbramento e alarido tecnológico a nudez do monarca no seu trono solitário.

Led

Mentiroso compulsivo

Se queres mentir com eficácia histórica comprovada, põe-lhe tanto de exotismo como em detalhe. Foi assim que se teceram os grandes ideários políticos e religiosos.

Led

Fósseis

O tempo arcaico das palavras. O tempo de as conversar e de não as atropelar. O tempo das ideias encorpadas em vez de bocados medíocres de cortiça seca transaccionáveis como artigos de supermercado. O tempo epistolar antes do tempo s.m.s. O tempo em que havia tempo. Esse tempo. Fóssil arcaico adequado a museu como o esqueleto de Lucy.

Led

Porvir

Vem, Sol espantadiço. Vem, Sol fugidio. Adornas a coroa mas não amornas a coração. Avisto contigo os horizontes da vida e da linha que os percorre. Mas calor que me faça sorrir não vem. Aqueço-me à memória de quando vinhas e do que em mim ia contigo e me fazia sorrir nesse teu vir. Vem, Sol medroso. Vem, Sol clandestino. Regressa amanhã. Talvez eu me agasalhe contigo e o calor que acalento em mim tenha preguiça em partir.

Led

Vives

rodeado de enigma e jamais lhe serás relevante. Aceita-o, respira-o. E aconchega-te nele como no seio morno que te fez divino por um só ocaso entre duas noites eternas.

Led

domingo, 4 de outubro de 2009

Back to the music

Volcano Choir - Island, IS

Led

Imaginação ao poder

É talvez a altura certa para o declarar em tom solene e oficioso:

Este blog (assim como o requintado diabrete seu criador) apoia com veemência a candidatura “Coimbra com Ambição” à autarquia de Coimbra, encabeçada pelo Prof. Álvaro Maia Seco.

Sem querer cair em excessiva retórica oca de campanha, destaco apenas o dinamismo, honestidade, rigor e visão integrada de futuro que bem caracterizam o candidato em questão.

É tempo de acabar com 8 anos de marasmo, inaptidão, oportunismo e constrangimentos judiciais protagonizados pela maioria PSD/CDS/PPM e da não surpreendente conivência do PCP.

Como em todas as campanhas visando o preestabelecido, este será certamente um combate difícil e entre forças desequilibradas, mas também só assim certamente valerá a pena no final.

Muito boa sorte!

Estou indisponível para impropérios e directrizes de consciência apolíticas.;)

Led

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

6 (+5) canções para o fim-de-semana

Supersuckers - I Say Fuck (live, 90...)
Nirvana - Endless, Nameless
Wipers - Return of The Rat
Sonic Youth - Malibu Gas Station
Melvins - Lizzy
Dead Boys - Sonic Reducer
Mudhoney - Tales of Terror
Fastbacks - Just Say
The Vaselines - Son Of A Gun
Alice in Chains - All Secrets Known
Nirvana - The Man Who Sold The World (live, 92)

P.S. Caso alguma canção dê problemas no leitor do blog: "salvar como" ou "abrir numa nova janela".


Led

Album of the week: AIC - Black Gives Way To Blue

"These songs will strike a chord and make a similar impact on all of you out there that were moved by this band in the first place." - Layne Staley

Led

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"Bronzeados" cerebrais

”The rock band (Muse) was forced to play in playback during an italian tv show about football "Quelli che il Calcio". So Muse decided to exchange their instruments and positions. The singer became a drummer, the drummer sang and played bass, and the guy who usually plays the bass played guitar and keyboard. Nobody (in the tv show) noticed the difference. Furthermore at the end of that fantastic performance the hostess interviewed the drummer that still acting like the singer talked about his friend Mathew in the drums (he his the real singer). Dominic Howard is telling Simona Ventura why he chose Italy to record the album, says it's a wonderful country, he likes to be there, and that the drummer Matt lives in Como and they have just built a recording studio and enjoyed a lot and is a beautiful place to be creative. PS. sorry for not perfect english and remember that not all italians are ignorant and egocentric like the staff of that show”

(and Berlusconi).

Obrigado pelo link, Viegas.

Led

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Diálogos de interesse relativo

(..)
- Nada é absoluto porque tudo é relativo!
- Mas essa proposição Kelseniana não vale de muito e sempre foi usada para depreciar qualquer argumento!
- Porque “tudo é relativo” é de facto um "absoluto"?
- Sim. Mas também porque tudo é relativo como a exactidão absoluta desse axioma circular.
- ...
- ...
- Continua a parecer-me um pénalti claríssimo.
- Absolutamente relativo.


Led

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

6 (+1) canções para o fim-de-semana

Tyler Ramsey - Birdwings
Feist and Ben Gibbard - Train Song
A.A.Bondy - The Mightiest of Guns
Marissa Nadler - Ghosts and Lovers
JJ72 - Black Eyed Dog (Nick Drake cover)
Antony and Bryce Dessner - I Was Young When I Left Home

Neil Young - Light A Candle

PS: Caso alguma canção dê problemas no leitor do blog : "salvar como" ou "abrir numa nova janela".

Led

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Variação em sol menor

De vez em quando, e nos momentos mais imprevistos, derrama-se-nos sobre a alma uma tristeza infinita. De quê? De nada. Um deslizar brusco de tudo o que se acumulou, o rompimento das frágeis fibras sociais que nos amparam, até à nulidade e à indiferença dormente... Sem pré-aviso ou manual de instrução. Só nos damos conta do inesperado jacto, da irrupção brusca, do estampido de uma evidência áspera. Podemos talvez compor uma razão erudita e idealizada. E escriturar algo belo e piedoso sobre ela para colher compaixão vadia dos espúrios desgraçados que somos todos também. Coisas repetidas de best-seller e colunas cor-de-rosa, clichés desenxabidos, poemas respingados de banalidade, cotoveladas na sintaxe besuntadas de hipérboles e eufemismos, ninharias chorosas e artificiosíssimas com a pompa de coisas profundas e originais. Mas no vazio mais estéril de descrença todas as razões estão indisponíveis quando as procuramos.... E aí a sensibilidade mutilada. É a apatia de lodo que nem a música consegue fazer estremecer. É o cansaço cavado, é o descontrolo, é a vergonha rubra, são as trevas do mundo. É de manhã, o céu está nublado, há todo um dia a refrear. Mas de outras vezes, é uma alegria inesperada que nos invade, nos edifica além de nós, nos instaura em harmonia e bem-estar. O mundo multiplica-se de vozes mornas que nos falam, nos sustentam na rede do seu apoio, nos criam o lugar do adormecimento como uma mão quente na face. Na sala o rádio transmite não sei que música solene, (Mahler?), todo o interior da casa reverbera a claridade que vem lá de fora. E, subitamente, a aparição da verdade original, o encantamento da vida e do seu fulgor luminoso renascido. Somos assim um joguete de forças desconhecidas, com um sentir, todavia, que é nosso, nascido de nós e que em nós procura às cegas uma razão de ser. Porque deve haver uma razão para estarmos alegres ou tristes. E não há. Ou há aquelas razões domésticas que há sempre e logo adoptamos para haver lógica e coerência na vida. Sabemos assim de um amor forte que se nos extingue abruptamente ou do impossível gritante de ser nosso em plenitude. De um acidente ou da força renascida de dele sairmos incólumes. Da doença ou do conforto da convalescença. Da nostalgia ou da saudade dela sentir. Do sucesso ou do fracasso de um projecto. Da incompreensão de algo ou alguém que nos deixa ou que nos entra na vida e que ainda assim entra na íntima dialéctica que estabelecemos como razão para se estar triste ou alegre. Mas...só em súbitos instantes nos forma a evidência disso e a alegria ou o desgosto disso, a indiferença ou a agitação. Só em determinados momentos se vive o excesso de ser - o resto é a morte e o absoluto da sua inverosimilhança com o peso de uma grande pedra. O resto é o ser-se sem se ser. Na modorrenta e tranquila uniformidade. Em que é que se é mais homem? “Gato que brincas na rua...És feliz porque és assim” (Pessoa). Se na ponte segura. Se no abismo negro. Se no voo alado. Sei lá hoje onde se é mais humano. Tanta palavra importante que se nos escuma da boca. E nenhuma ser a essencial, a que nos dissesse todo e tudo e repercutisse na boca dos que a ouvissem. Que extraordinário esta coisa de o excesso de ser durar tão pouco. Mas decerto é necessário a intermitência para existir o seu deslumbramento, para ser excepção a sua excepcionalidade. E é esse, sem dúvida, o erro dos que ainda nos falam da felicidade. Porque se fossem apenas felizes, não eram felizes.

Led

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

I will now contribute to the ongoing modern folklore and mythologizing of MBV

Ouço pela enésima vez o sublime Loveless dos My Bloody Valentine. A segunda versão do disco-compacto, por demasiado (ab)uso ter dado à primeira. Dada a frieza de todo um imenso trabalho de gravação das infinitas camadas de guitarra que percorrem todo o disco, seria de esperar um certo pretensiosismo, um tom artificial, uma falta de emotividade. Mas nada podia estar mais longe desta particular verdade. É esse o falso paradoxo: na música, a impressão de espontaneidade e de júbilo criativo imediato é normalmente produto de um longo e trabalhoso processo. Para voltar à “vida”, a música tem que esforçar-se – não é uma via directa, quanto mais natural. Assim o sugere este disco. O tom quase épico de quase todos os fragmentos de Loveless não se perde nos mil filtros de estúdio - é realçado, mantido, depurado. Não consigo deter o impulso e regresso aos EP’s. Glider, Tremolo, Feed Me With Your Kiss. E, por momentos, sou reconduzido ao concerto em Portimão. Por alturas do magnífico interlúdio da canção You Made Me Realize, que deu nome a um EP (o melhor de todos os 7) e que já tem mais de 20 anos. Inacreditável, agora que penso nisso. Fazer algo assim em 1988. Fica-se bloqueado de espanto comparando com o caminho percorrido pela música alternativa nas duas últimas décadas. O seu timbre distintivo perdura indemne numa vanguarda impalpável para qualquer congénere contemporâneo. Irá sempre escapar às regras, normas, catalogações e preceitos actuais por muitos que inventem. Ainda que agora seja tudo deliberado, a regra e esquadro, a designada música moderna. Experiências ilimitadas de fusão, de adaptação e de transformação de todos os fios que constituem largamente o tecido rock. Mas que soam inevitavelmente a quilos de mundanismo e que conduzem invariavelmente a um profundo suspiro de cansaço com mais audições. “You made me realize, what did you say you’d find”, acompanhávamos. Nós, os poucos e lúgubres abnegados. 17 minutos plenos de estática e distorção estrepitosa que nos levou a encostar os tampões maricas nos ouvidos. 25 a 30 minutos de duração noutros festivais, ouvi dizer - com menos de 1 minuto na canção contida no EP. Suspensão no abismo. Os cabelos arrepiados. Decibéis de electricidade lancinante pela alma invadindo. Kevin Shields disse um dia procurar a espiritualidade pelo som o mais alto possível. Mas não só isso. Seria preciso retirar as entranhas desse som e ressumar exclusivamente as superfícies. Extrair as vísceras da cútis sonora. As faces aéreas. As camadas vagas e despretensiosas. As múltiplas nuances levianas e partíveis. Os prismas imensos da chuva caótica de vidros que se abate sobre nós. Dissonâncias sinistras e ensimesmadas. Ecos reverberados mas igualmente ásperos de precisão. Que querem por tudo ser silêncio da iteração infinita. Mil floreados incertos e invisíveis a cobrir um manto de cacofonia estridulosa. E o gumezinho cortante na ponta. E a doçura vítrea, na outra. E a metafísica no dorso, se o transcendente diletante assim o desejar. Enche a mais vasta solidão com sincopada feminilidade. Agregado condensado de electricidade impetuosa que nos arrasta na voragem hipnótica. Feixes de melodia alicerçados em caboucos rítmicos sólidos e neutrais. Vibração estridente de corpos sonoros oscilando no túnel de vento frio e seco que desde à horas varre o recinto e nos sustém no ar. São múltiplos e complexos filamentos sonoros e luminosos caídos do vazio sem nada a aparar-lhes a intensidade. A “elevação espiritual”. Entendo-o de algum modo. Mas não o sei explicar. Há qualquer coisa de irresistível que irradia misticismo na nuvem eléctrica crepitante produzida pelos seus sons. Mas é preciso saber aguardar. É preciso saber escutar. Como se escuta o silêncio, por vezes. Ser paciente antes e para mergulhar no enlevo narcótico. Os pobres adolescentes tresmalhados que esticavam o dedo médio atrevido e agitavam lenços brancos esperando pela banalidade aflitiva de uns Offspring não alcançaram nada daquilo. Talvez nunca percebam porque são patologicamente precipitados e estão imersos numa cultura de facilitismo e imediatismo. O som. Talvez se dance, talvez se cante, talvez se salte. Não se veste. Não serve para nos fazer alegres. Tanto pode dar como não. Then come, come, come, E pela enésima vez me sinto a transbordar de mim. Kevin Shields deve ser profundamente crente. E tratar Deus por tu. Get the Hell Inside, You Can Close Your Eyes. You Made Me Realize.

Led

sexta-feira, 24 de julho de 2009

5 (+ 5) canções para o fim-de-semana

TP Theme - Instrumental
Death In Vegas - Dirge
Thom Yorke - All For The Best
Coldplay - Parachutes (Ornament rx)
The Notwist - Boneless
Imogen Heap - Canvas
Fleet Foxes - Mykonos
Coldplay - Lovers in Japan (acoustic)
We Were Promised Jetpacks - It's Thunder and It's Lightning
Muse - United States of Eurasia/Collateral Damage


PS: Caso alguma canção dê problemas no leitor do blog : "salvar como" ou "abrir numa nova janela".

Led

sábado, 18 de julho de 2009

Album of the week: We Were Promised Jetpacks - These Four Walls

An electrifying boost of youthful thrill. Sonic blistering post-modern post-punk dissolved in a post-Scottish post-romantic drawl.


Bastante razoavelzinho,vá…
(o single na post anterior)

Led

sexta-feira, 17 de julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Pitchfork

Quando um músico original é de facto original, a sua música naturalmente impõe-se. Mas depois a sua originalidade começa a escorrer para os críticos, comentadores, imitadores, subsequentes e mesmo antecedentes, e isto através dos meses, dos anos. Até que a tal música original é apenas um conjunto de lugares-comuns e imitação ou plágio de si própria.

Led

terça-feira, 14 de julho de 2009

Pedagogia da culturalidade

Às vezes penso que na Universidade deveria haver qualquer coisa como um curso de cultura geral. Seria possível? Seria ao menos aproveitável? Dar ao estudante mimado consumista e indolente uma ideia aproximada do que se passa e passou em história, geografia, política, economia, filosofia, letras, ciência, música e o mais? Ao menos umas noções básicas de história e política, santa Atena! A consciência do que significa fazer parte de uma sociedade com uma narrativa particular ou talvez da importância capital dos escrutínios eleitorais. Talvez não. Com o calculismo carreirista actual, finda a estafa de memorização beluína, dar-se-ia um grande suspiro de alívio e atirar-se-iam os compêndios bolorentos de gente defunta para o sótão orgulhoso do desprezo e entorpecimento. O que acontece é que nem numa especialização há depois dela um verdadeiro interesse. Um curso qualquer não dá quase nunca, nem aos óptimos alunos, um interesse vivo e posterior pelas matérias estudadas. Rapidamente se passa do neutrão para o quark infinitesimal e se esquece o átomo longínquo. Quanto mais as matérias não-estudadas! Só interessa quando é fácil ou espectacularizado ou demora pouco tempo ou se retiram vantagens materiais desse saber. Gente descomplexada do tecnicismo dogmático. Concisos, expurgados, lacónicos. Encarcerados no seu nicho enviesado e orgulhosos da sua comuna especializada, diferenciada, distinta, particularizada, “geekzóide”. E depois a típica condescendência de esguelha por quem cria tempo por se interessar com o que se passa no resto do mundo. Decerto, são muitos os argumentos desculpabilizantes para a fraca versatilidade do saber do aluno actual. Mas pior que não saber é mesmo a soberba cavalgadura com se desculpa a ignorância e se entroniza a especialização e a vista curta. “Caprichos de quem tem a vida folgada”, atiram por vezes. E a razão deverá estar próxima desta, aprendendo-se a cartilha dos nossos direitos, mais difícil é aprender a cartilha dos nossos deveres culturais como cidadãos. A diferença é subtil mas crucial. Um curto tempo disponível não é o mesmo que uma curta disponibilidade para esse tempo. A cultura é o modo avançado de se estar no Mundo, ou seja a capacidade de se dialogar com ele. E isso é coisa cada vez mais rara hoje em dia. O que não é raro, porque é vulgar, é estar diante dele sem o mesmo pasmo do boi diante do palácio. Mas é tentadora a ruminância quando a ração é fraca.

Led

quinta-feira, 2 de julho de 2009

6 (+1) canções para o fim-de-semana


Tortoise - Northern Something

Mew - Repeaterbeater
Dinosaur Jr - Your Weather
Portugal The Man - My Mind
TV on the Radio - Family Tree
Justin Vernon - Hazelton
The Envy Corps - Keys To Good Living


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Led