quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fragmentos do exílio

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica, sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
-apenas uma angústia melancólica,
Sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
Falareis de nós – de nós!- como de um sonho.


Jorge de Sena – “Ode para o futuro”, Pedra Filosofal, 1950


Led

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