É inquietante rever excertos do congresso republicano. De McCains, Palins, Romneys, Huckabees, Giulianis... Um espectáculo deplorável que recicla o discurso sempre a empolar o militarismo nacionalista, a intolerância mascarada de ética cristã, o tom autoritário de lobo-mau, o reaccionarismo mental e a decadência intelectual. Pelo desafio subjacente à frase mais simples que se diga com a frieza de quem já viveu tudo e não guarda um sentimento de quem tenha vivido menos. O orgulho correligionário cheio de símbolos despóticos de força e segregação contra o elemento externo e contra a mutabilidade natural. O elemento externo, a Europa, a Rússia, a Venezuela, Chile e Uruguai, a rua muçulmana e o eixo do mal mas também os media, as celebridades de Hollywood e a comunidade “artística” de esquerda, o supremo tribunal, os desertores, os terroristas, os fracos, os pacifistas, ecologistas, cientistas, pro-choicer's, liberais e homossexuais, todos urdidos numa maquinação contra eles, os verdadeiros americanos, orgulhosamente sós, os conservadores, detentores da verdade única, brancos, decentes, hercúleos e redentores. Uma delegada dizia que sempre que se lembrava de Obama pensava nas suas “visões socialistas e marxistas” e continuava, emocionada, assegurando que Bush tinha sido um “excelente presidente”. Apesar da recessão, do desemprego e pobreza disseminada, das relações externas cortadas com inúmeros países, do conflito supérfluo, consumidor e sanguinolento no Iraque e do fracasso no Afeganistão e na captura de Bin Laden, do Katrina, do conflito nuclear eminente no médio-oriente, do Guantânamo, dos contínuos atropelos ao ambiente e desprezo por quem tem alertado para o abismo ecológico em que o mundo vai rapidamente mergulhando, apesar de todos os escândalos na administração e a impotência para fazerem face a um mundo globalizado e multicultural e multiproblemático. Ainda assim, a mesma ignorância de há 8 anos, a desconfiança e o medo a induzir a ofensiva, a mesma devoção cega, a mesma incapacidade de perceber a América no mundo actual e a história recente que o definiu. É impossível ficar alheio aos destinos de um país que também é o nosso porque a ele pertencemos em múltiplos aspectos. Não votamos, mas devíamos. A grande virtude da direita, afinal, é que forçou a uma melhoria na esquerda. Mas esperemos mesmo que tenha sido suficiente pois a direita não quis definitivamente aprender nada. E a cedência à ignorância sempre foi marcada por um augúrio de sangue e infortúnio.
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