quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Top 15 - 2009

Sem grandes surpresas, sem extenso palanfrório, a minha humilde lista para os discos saídos em 2009:

1. Gregory Alan Isakov - This Empty Northern Hemisphere
2. Muse - The Resistance
3. We Were Promised Jetpacks - These Four Walls
4. The Pains Of Being Pure At Heart - The Pains Of Being Pure At Heart
5. Pearl Jam - Backspacer
6. Engineers - Three Fact Fader
7. Bat For Lashes - Two Suns
8. Alice in Chains - Black Gives Way to Blue
9. Gliss - Devotion Implosion
10. Cymbals Eat Guitars - Why There Are Mountains
11. Sonic Youth - The Eternal
12. Cats On Fire - Our Temperance Movement
13. Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures
14. The XX - XX
15. 93 Million Miles From the Sun - 93 Million Miles From the Sun

Menções honrosas:

Hope Sandoval and the Warm Inventions - Through the Devil Softly
The Search - Saturnine Songs
Bvdub - We Were The Sun
Silversun Pickups - Swoon
Fanfarlo - Reservoir
Volcano Choir - Unmap
Yeah Yeah Yeahs - It's Blitz!
Wolfmother - Cosmic Egg
dR Estranhoamor - Os Crimes do dR Estranhoamor e Outras Estorias
Doves - Kingdom Of Rust

Boas entradas!

Led

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Bom natal

Natal

Natal. Esperança morta de um céu para lá das estrelas, é bom que a finjam ainda as mãos áridas de um homem. Filho dos deuses ou dos homens, é um menino que nasce, é a evidência da eterna promessa para o nosso olhar cansado. É uma expectativa de nada, de apenas nos suspendermos à revoada dos ventos, das chuvas, da névoa, dos sinais da memória. Imagens ternas do que passou. Minha comoção oblíqua. As horas correm lentamente como se tivessem uma eternidade a cumprir. E eu com elas. Longo tempo me demoro ainda na incerta ausência de mim, enquanto o vento quebrando, a chuva abrandando, cai agora clareada, quase perpendicular, e no espaço ressoa do côncavo do vale o fervor de uma braveza apaziguada. Na dúbia luz da sala, o clarão do radiador aos meus olhos, de novo nele se me acende o tremular da memória, indistinto à fluidez da distância, cintila de longe em longe o rasto do que acabou. Natal. Breve harmonia, breve refúgio de um calor de se estar bem, de apenas ficar contemplando. E fechar os olhos à lassidão. E talvez dormir.

Led

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Big Black Car

Well time has a way of throwing it all in your face
The past, she is haunted, the future is laced
Heartbreak, ya know, drives a big black car
Swear I was in the back seat, just minding my own


Gregory Alan Isakov

Led

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

6 (+6) canções para o fim-de-semana

Arcade Fire - Cold Wind
Fleet Foxes - Isles
Voxtrot - The Warmest Part Of Winter
The Go Find - Ice Cold Ice
Vampire Weekend - Cousins
Charlotte Gainsbourg & Beck - Heaven Can Wait
John Mayer - Free Fallin’ (live)
Zooey Deschanel & Leon Redbone - Baby It's Cold Outside
David Fonseca - It’s Just A Dream II
Gregory Alan Isakov - Big Black Car
Bon Iver - Blindsided
Tiller Ramsey - Please Stop Time


P.S. Caso alguma canção ofereça problemas na audição através do leitor do blog (ex. lentidão, intermitência) : " salvar como" ou "abrir numa nova janela".

And use your headphones!

Led

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

6 (+ 8) canções para o fim-de-semana

KoЯn - Dead
Deftones - My Own Summer (Shove it)
KoЯn - A.D.I.D.A.S.
Deftones - Minerva
KoЯn - Falling Away From Me
Deftones - Hexagram
KoЯn - Did My Time
Deftones - Back To School (Mini Maggit)
KoЯn - Got The Life
Deftones - Drive (The Cars cover)
KoЯn - Freak On A Leash
Deftones - Knife Prty
KoЯn - Blind

Various - A Song for Chi

Link

P.S. Caso alguma canção ofereça problemas na audição através do leitor do blog (ex. lentidão, intermitência) : " salvar como" ou "abrir numa nova janela".

And use your headphones!

Led

Guerra Justa

"Dizer que a guerra é por vezes necessária não é apelar ao cinismo, é reconhecer as imperfeições do Homem e os limites da razão"

O Obama mencionou hoje 45 vezes (durante 37 min) a palavra “guerra” aquando da recepção do prémio Nobel da Paz. Arrisco que este vai ser o lugar-comum - propositadamente percepcionado como paradoxal - mais repetido pelos cerebrais “comunas” e elaborados comentadores durante os próximos dias. Por isso sorrio agora de fina ironia com o brilhante achado intelectual para não ter de rir depois.

Led

Contra a indiferença

O Fernando Nobre (AMI) explicava há pouco na SICN (excelente entrevista) que mantém intacta a sua crença no divino, mesmo após toda a devastação, ódio, sangue e barbárie que presenciou no terreno durante os seus 25 anos de carreira. Fica-se assombrado de tanta generosidade para com o Criador. Mas como absorver isto? A responsabilidade com a História do Homem, dizia ele em traço grosso, é do próprio Homem e de toda a avidez e corrupção que lhe está nos genes. Apesar do óbvio "la Paliciano", fica-se estupefacto com a nobreza de tais considerações genuinamente sentidas. Imensa sapiência e altruísmo, sem dúvida alguma. Inatacável doutrina filantrópica. Mas afirmar isto do Criador é depreciar o divino para uma categoria abstracta e intangível à sujidade de animal. De puro alheamento para com o difícil coabitar humano. Resta saber porque (e não como) mantém a crença, sendo que esta sempre foi uma convicção baseada em algum grau de necessidade, baseada num qualquer tipo de expectativa. Uma intuição quinto essência todo ela humana. Como dispensar o divino de justificações perante a vida, se é só ela que o Homem parcamente descortina? Como manter uma crença e imperturbavelmente isentá-la de uma realidade atroz? Excluindo a maluqueira ficcionada das religiões, deliberadamente omitir o divino de toda a indecência humana é a mais alta prova de devoção no Criador. O que inventamos a nós próprios para não estarmos sozinhos em face da morte é realmente prodigioso. Mas ainda assim menos prodigiosa que a imensa Humanidade do Fernando.


Led

Em casa de enforcado não se fala em cordas

Passou todos os dias da sua vida com a corda atada ao pescoço, na constante ameaça de se estrangular. Um dia num assomo de coragem cortou finalmente a corda que o oprimia. E morreu estendido.

Led

Rebelo Pinto

O escritor medíocre diz-nos o que as personagens sentem. O de qualidade deixa-nos nós a dizê-lo. É que ele sabe respeitar a nossa liberdade e o nosso orgulho. Sentir é envergonhar-se.

Led

Corpos celestes

Estimadas 125 biliões de galáxias. Cada uma dessas contendo entre 100 milhões a 1 bilião de estrelas. Fica se bloqueado no pensar. Como é que é possível em face disto termos ideias para ir pensando, projectos e planear, paixões para acalentar, a entreter o instante infinitesimal de se existir? Como erguermo-nos, para se ir sendo humano, por sobre esta infinita desolação? Pensa a terra no tempo dos dinossauros. Pensa a terra como um futuro astro morto. Todas as filosofias e questionamentos religiosos deviam começar aqui.

Led

Cork

Uma descrença cavada, uma aversão à auto-lamúria, a imaginação esvaecida. Pensamentos secos, de cortiça. Dia de merda. Um apelo à desistência como soterrado numa avalanche. Viver passivamente, não na sua activa participação: olhar, ouvir, flutuar na imaginação, apático, pelo menos assim inofensivo. I could float here forever... Por cima disso tudo, a tarde cinzenta impassível a carpideiras medíocres e outras mudanças de humor.

Led

O outro

Todos os problemas do homem são um modo de entreter o outro que há-de vir. É o que se anuncia nas horas de silêncio. Por isso se não pode falar dele ou fazermos ruído para o não ouvirmos.

Led

sábado, 5 de dezembro de 2009

Them

Sem dúvida, Alex...

Led

E já está

“Livrar-me da televisão pareceu-me fácil. Foi há uns vinte anos. Tinha um piano e uma lareira e amigos que sabiam conversar. Sobretudo os telejornais que pretendem informar, não me pareciam senão um espectáculo em que nada se pode aprender, porque a uma notícia se segue outra em turbilhão, sem que alguma verdade se descubra. Ser notícia significa, pensava eu, precisamente isso, ser a superfície do que fica por mostrar. Nada tem a ver com a verdade ou a mentira, o que importa é julgarmos ficar a par do que acontece, sem ser preciso compreender o que quer que seja, uma perversa satisfação. Não é para pensar, é para ver de longe e já está.”

Pedro Paixão - “Vou comprar um televisor”

Led

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

6 (+6) canções para o fim-de-semana

Johnny Cash - Get Rhythm
Biffy Clyro - Living Is A Problem Because Everything Dies
We Were Promised Jetpacks - Moving Clocks Run Slow
Tears For Fears - Mad World
Alice In Chains - When The Sun Rose Again
R.E.M. - It’s The End Of The World (And I Feel Fine)
Old Canes - Little Bird Courage
Lightning Dust - I Knew
Caspian - The Raven
Biffy Clyro - Many Of Horror
Clap Your Hands Say Yeah - Blue Turning Gray
The National - Cherry Tree


P.S. Caso alguma canção ofereça problemas na audição através do leitor do blog (ex. lentidão, intermitência) : " salvar como" ou "abrir numa nova janela".

And use your headphones!



Led

1987

Que coisa maravilhosa...


Led

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Muse - Pavilhão Atlântico (29-11-09)

Sem grandes surpresas (excepção seja feita à “MK ultra” e ao momento pós-rock de um dos lados-B do single “Unintended” denominado “Nishe”), a setlist da noite anterior:

00. We Are The Universe Intro
01. Uprising
02. Resistance
03. New Born + Head Up riff (Deftones cover)
04. Map of the Problematique
05. Supermassive Black Hole
06. MK ultra
07. Interlude
08. Hysteria
09. Nishe
10. United States of Eurasia
11. Feeling Good
12. Guiding Light
13. Helsinki Jam (Dom e Chris)
14. Keyboard intro + Undisclosed Desires
15. Starlight
16. Plug In Baby
17. Guitar Intro + Time Is Running Out
18. Unnatural Selection

Encore:

19. Exogenesis: Symphony Part I (Overture)
20. Stockholm Syndrome + riff
21. Harmonica Man intro
22. Knights of Cydonia

Faltou o jogo de luzes a funcionar decentemente na “Exogenesis” e nada mais a reportar que não mais uma prestação imaculada do trio de Devon ( e outra da banda de suporte, Biffy Clyro). Talvez demasiado imaculada? É certo que sempre me fez alguma impressão algum excesso de zelo e encenação na produção de concertos. Existe sempre o risco de a coisa se tornar demasiado impessoal e mecanicista, o que até seria uma ironia tendo em conta os temas recorrentes de “revolta contra o sistema” nos quais se tem versado a banda nos 2 últimos álbuns. Mas a verdade é que um concerto de Muse é hoje, mais do que tudo, um grandioso espectáculo que balanceia equilibrada e detalhadamente a música com movimentos psicadélicos de luzes coloridas, imagens em múltiplos ecrãs que envolvem gigantes torres-plataformas móveis, lasers e balões repletos de tiras douradas. Os temas são reproduzidos freneticamente e sem falhas, com as interrupções necessárias para as palmas e outras demonstrações de veneração. Goste-se ou não se goste, os Muse são hoje indubitavelmente uma banda de massas. Estão feitos à imagem de uns Queen, U2 ou Pink Floyd. Estão mais marketizados, mais cintilantes e vanguardistas, mais empenhados no conceito de concerto-espectáculo. Contudo, e ao contrário do que afirmei aqui para Coldplay há uns tempos (também no Atlântico), os Muse são tremendamente eficazes na mensagem e não irritam pela previsibilidade. A verdade é que o assombro sensorial é tão vertiginoso e hipnotizante que instantaneamente o pirronismo dos mais teimosos e acautelados (como eu) é avassalado pelo incrível virtuosismo de todo o panorama sensitivo. À força das evidências que só se alcançam ao vivo, rapidamente todo o cepticismo se varre mal entram em cena os acordes ritmados da “Uprising”. De resto, eles falam muito pouco, não repetem banalidades, deixando uma impressionante máquina bem oleada de rock tomar conta do resto. Os Muse são hoje uma banda de dimensões galácticas e é compreensível a necessidade de uniformizar os concertos para que todos os fãs tenham direito ao melhor. Os Muse são hoje gigantes.

Em suma, um espectáculo verdadeiramente deslumbrante. E como dizia alguém, depois de tantas esperas e expectativas, vai ser difícil resgatar a rotina depois deste domingo passado.Talvez tendo como pensamento que, conforme disse o Dom no final do concerto, eles regressarão já no próximo ano a Portugal. Se em parceria com os U2 ou se em algum festival de Verão, logo se verá.
A vida segue dentro de momentos...

Os meus temas da noite: Uprising; Hysteria; Feeling Good; Unnatural Selection; Exogenesis; Stockholm Syndrome.

Foi assim…
Feeling Good (live Lisbon, 29-11-09)

Led (
e pelos vistos atingiu-se o record de canções tocadas em PT, 21!;))

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

6 (+ 14) canções para o fim-de-semana

Guten Abend, Berlin!

00 - We Are The Universe, Absorbing itself, Destroying Itself (intro)
01 - Uprising
02 - Map of the Problematique
03 - Supermassive Black Hole
04 - Resistance
05 - Interlude
06 - Hysteria
07 - New Born + Headup riff (Deftones cover)
08 - Cave (Piano version)
09 - Popcorn (Hot Butter cover)
10 - United States of Eurasia
11 - Starlight
12 - Keyboard Intro
13 - Undisclosed Desires
14 - Time Is Running Out
15 - Unnatural Selection
Encore
16 - Stockholm Syndrome

17 - Plug In Baby
18 - Harmonica Man (Ennio Morricone cover)
19 - Knights of Cydonia
20 - Exogenesis : Symphony Part 1 (Overture) (Bonus track, Berlin 29-10-09)


P.S. Caso alguma canção ofereça problemas na audição através do leitor do blog (ex. lentidão, intermitência) : " salvar como" ou "abrir numa nova janela".

And use your headphones!

Led

Estatísticas de uma banda em Portugal


1) 23 de Agosto 2000 - Ilha do Ermal (Minho); Showbiz tour - 9 canções tocadas.
Inesquecível.
2) 19 de Abril 2002 - Hard Club (Porto); Origin of Symmetry tour - 15 canções tocadas.
Razoável.
3) 21 de Abril 2002 - Aula Magna (Lisboa); Origin of Symmetry tour - 15 canções tocadas.
O melhor.
4) 4 de Agosto de 2002* - Festival Sudoeste (Zambujeira); Origin of Symmetry tour - 15 canções tocadas.
Fui... mas coiso, não me lembro bem.;)
5) 9 de Junho 2004 - Festival Superbock (Lisboa); Absolution tour - 12 canções tocadas.
Não vi.
6) 26 de Outubro 2006 - Campo Pequeno (Lisboa); Black Holes...tour - 19 canções tocadas.
Colossal.
7) 6 de Junho 2008 - Rock In Rio (Lisboa); Out-tour - 12 canções tocadas.
Não vi.

8) 29 de Novembro 2009 - Pavilhão Atlântico (Lisboa) ; The Resistance tour - ?

* Obrigado pela lembrança, Jo.;)

Led (Freitas Lobo)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

I promise you to blow it all away

Led

Mas será mesmo algo assim

Source : MuseWiki; Muselive; Muse.PT

Led

Carta Aberta aos senhores Muse

Excelentíssimos senhores Muse:

Tendo eu tomado conhecimento há quase uma década da vossa assombrosa capacidade de resistirem durante longos períodos de tempo tocando ao vivo sem interrupções como que possuídos de um frenesi diabólico - conseguido mesmo atingir números de canções executadas que inclusive já ultrapassam a marcante fasquia de vinte e cinco momentos de puro arrebatamento - e esperançado que tendo eu alcançado a ilustre consideração de velho fã que até já vos viu por 5 vezes, gostaria agora de vos apresentar uma humilde sugestão de setlist para o próximo dia 29 que seguidamente exponho no final desta curta missiva. Antes disso apenas desejaria fazer logo aqui a pequena achega que me bastaria um pequeno quarteto de cordas para os temas mais sinfónicos, não sendo por isso (absolutamente) necessário virem acompanhados da filarmónica londrina de 40 músicos que vos auxiliou no último álbum. E sim, eu sei que os 3 distintos músicos a que me reporto nesta modesta epístola são artistas com dons divinos capazes de multiplicar sons e instrumentos e emoções que facilmente imprimem a ideia no incauto ouvinte de estar perante uma orquestra sobrenatural e que preferem fazer sempre tudo sozinhos (ainda que com a ajuda de um quarto cavalheiro sortalhudo chamado de Morgan Nicholls na primeira parcela da Exogenesis quem por vezes têm tocado nesta tournée), mas ainda assim gostaria que fizessem deste concerto em Lisboa a tal experiência sinfónica que andam a prometer aos fãs desde 2004. Depois de atentarem em tão despretensiosa e equilibrada proposta de setlist apenas queria ainda acrescentar que estou confiante que não corro o risco de os tão meus estimados diabretes de Teignmouth me apelidem de “demente espacial” e me mandem para as termas do Lago de Como curar a “megalomania” que normalmente antecede o “apagão”.

Atentamente.

Um vosso fã idiota.
Led

sábado, 21 de novembro de 2009

Out of time


Led

Ressaca

Pip Pip. I'll keep running running running till I'm out of breath. Through the forest in the poorest of directions. Abandonar-me num poço fundo e não pensar. Embalado, alheado e esquecido de mim. Regressar à planície frondosa da imaginação, deitar-me nela, escutar a maresia no remoto oceano da intenção, longe do tumulto da consistência realista, da polvorosa de vozes eriçadas e sempre exclusivas e sempre importantes que nos estilhaçam a alma de brilho ofuscante. Permanecer na margem do flúmen viçoso. Ser marginal. Não por desprezo da norma comum. Não por amoralidade, tristeza, miserabilismo ou abjecção. Mas pelo cansaço plasmado, pela fadiga resultante da imputação de ter de corresponder, exangue tédio derivado da previsibilidade de ter de convir, fina humilhação pela premência coerciva de definição, encolhido pudor de se ser em reciprocidade. Ser apenas do lado da vida em que não passa muita gente. Permanecer no friso esconso da calçada. Solitário transeunte no trem errante da regressão. Dedicado Guarda livros asceta da biblioteca deserta da imaginação. Ser apenas no sereno recato de nós, na curta dimensão de nós. Como as insuladas lágrimas dispersas no areal pelo alto-mar. Não por comodismo, mágoa, falsa modéstia, ressentimento. Não por nada disso ou outras coisas disso, mas só para nos não perdermos de nós, não nos esbanjarmos na invasão da devassidão absorta. Abandonar-me num poço fundo e não pensar. Embalado, alheado e esquecido de mim. A tua palavra é breve, não a prolongues ao que não é. E o teu pensar, o teu sentir, o teu ser. Não os sejas mais do que és. E então talvez aí o sejas sem o seres.

Led

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

6 (+6) canções para o fim-de-semana

Bvdub - Time Will Tell
Deftones - Digital Bath

Jimmy Chamberlin Complex - Lokicat

The Envy Corps -Pip Pip

Youth Group - All This Will Pass

The Search - Woman in the Corner

Cymbals Eat Guitars - Wind Phoenix (proper name)

Fanfarlo - We Only Come Out At Night (live, SP cover)

Laura Gibson - Shadows On Parade

Team Sleep - Elizabeth

Ringo Deathstarr - Summertime

The Cure - If Only Tonight We Could Sleep (live Berlin, 2002)

P.S. Caso alguma canção ofereça problemas na audição através do leitor do blog (ex. lentidão, intermitência) : " salvar como" ou "abrir numa nova janela".

And use your headphones!

And all this shit (sadness, horror, inconceivability, trauma) will pass.

Led

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fragmentos do exílio

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica, sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
-apenas uma angústia melancólica,
Sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
Falareis de nós – de nós!- como de um sonho.


Jorge de Sena – “Ode para o futuro”, Pedra Filosofal, 1950


Led

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

True neutral color


Na verdade, na maior parte das vezes não é preto nem branco mas uma sequência de tons cinzentos.

Led

terça-feira, 17 de novembro de 2009

You don't have to speak



Led

Raskólnikov

“Deus enlouquece primeiro aqueles que pretende destruir.” - Eurípides

Todo o homem acarreta em si a semente da loucura. Como um ardor danado germinando nos infinitos sulcos de uma lucidez volúvel e aparente de bonecas russas. Submersa numa densa nebulosa de confusão e pavor abstracto. Uma raiva surda imprecisa na sua ordem e magnitude. Latente no seu fundo intáctil a qualquer sensatez superficial, como um estranho dentro de si mesmo. A parte besta do homem ocupa, aliás, a maior extensão dele. Entorpecida nas relações quotidianas, despertando quando as circunstâncias a favorecem. E tão fácil foi sempre favorecê-la…Tão ténue essa distância infinitesimal que nos atiça o nosso alarme de desvario animal. Tão fácil para alguns transmutá-la em ódio fulminante. Infinito é assim o ódio em potência do homem mas as circunstâncias e os subterfúgios não são nada… Porque as razões não existem numa dimensão de loucura. Porque nunca houve pretextos habilitados e suficientes que dessem vazão ao ódio. Porque ao princípio sempre foi o ódio e não a razão de odiar. Ou ao princípio é a importância ególatra que o homem se dá a si e todos os pretextos convenientes para a impor sobre os outros.

O homem é um milagre precário, frágil miragem da representação que conserva de si mesmo. Ao mínimo deslize, ele recai nas quatro patas, que é o seu mais pesado destino de besta solitária. Criando ou tirando vida, comparando-se assim ao divino que engendrou para não estar sozinho. A loucura é assim acessível a todo o homem, é do destino de todos que partilham o absurdo de ser. Mas loucos são só os que não regressam dela.

O homem é um prodígio oculto e ilimitado. Para o bem e para o mal. Esse excesso de si a que alguns chamam Deus. Esse deus a que alguns chamam excesso.

Led